Máximo Trevisan
Uma marolinha, na inicial e eufórica avaliação do Presidente Lula, um verdadeiro tsunami para os observadores e analistas internacionais, a crise mundial deixa de ser apenas uma ameaça para tornar-se uma dura, cruel e exigente realidade. O Brasil já sofre os graves efeitos, não de uma aragem, que cria marolinha, mas de ondas gigantescas, provocadas por vendavais econômicos, políticos e sociais. É notório que o Brasil de hoje está melhor do que o de ontem para enfrentar tão graves intempéries, mas, é forçoso reconhecer, sob a ótica política e popular, que não há uma consciência clara e aguda da crise mundial que traz perda de referência, ausência de certezas, sensação de vazio, de ameaça, de desequilíbrio, de fechamento de oportunidades.
Há cada vez mais potentes vagas agitando o mar da economia, enquanto há cada vez menos vagas em terra, nas empresas, nas organizações de trabalho, no mundo dos jovens. Uma vaga, nas complexas relações humanas, tem conotações diversas, ora podendo significar multidão que invade espaços em desordem, ora falta, carência, lugar disponível ou vazio, cargo não ocupado. Este sentido de vaga, tão próximo e tão visível, perturba mais do que os outros, carregando angústias e incertezas aos trabalhadores e aos empresários.
Santa Maria, a cada ano, atrai milhares de jovens à cidade. Vaga na universidade é algo a conquistar; vaga é concorrência; vaga é muito sonho alimentado diante de poucos caminhos concretos. Hoje a luta é por uma vaga em curso superior; amanhã será uma luta por uma vaga de trabalho, num mercado cada vez menor e mais competitivo. A crise atual diz claramente: já não basta ingressar numa Faculdade, nem ser depois um egresso com diploma. Fundamental será tornar-se um candidato habilitado, competente, preparado para um mundo que se alimenta mais de incertezas do que de certezas. As placas “Não há vagas!” estão sendo cada vez mais freqüentes, não só na porta das fábricas ou no canteiro de obras, mas também nos cargos públicos e privados. Não se pode desconhecer essa realidade. A preparação pessoal, técnica, científica, cultural e social precisa ser cada vez mais qualificada para o enfrentamento de um futuro exigente e incerto, e isso supõe mais tempo e mais investimentos.
Marolinha ou tsunami? Otimistas ou pessimistas, importa não desconhecermos nem super ou subdimensionarmos a crise, que é real. Há pássaros no ar e tempestades no mar. Lucidez, competência e garra são essenciais como componentes de uma cesta básica para enfrentar os desafios que aí estão, com os olhos voltados ao mundo, sem perder de vista o chão que estamos pisando.