Pedro Brum dos Santos
Castro Alves, no século XIX, numa expressão típica de nosso fastio de letramento, conclamava, em versos inflamados, bem ao seu estilo: “bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e manda o povo pensar!”
Cem anos depois, no correr dos anos 70 do século passado, Quino, o cartunista argentino, destinava, ao mesmo tema, um olhar de revés, revestindo-o do seu característico humor implacável. A situação é vivida por Mafalda, a garotinha criada pelo gênio de Quino, a quem o amigo Manolito indaga: “Que vais dar à tua mãe no dia das mães?” “Um livro”, responde-lhe a menininha. “Ora”, replica o outro rindo, “deixa de lorotas. Pensas que eu não sei que ela já tem um?”
A situação de ter ou de dar livros, nos dias que correm, modificou-se drasticamente com a presença onipotente do computador. É cada vez maior o número de obras encontradas na internet. A sensação é de que, sem demora, todos os acervos estarão on-line.
Essa massiva migração do papel para a tela já começa a ser percebida pelas escolas. Outra dia, no site de uma universidade – acho que paulista – topei com endereços eletrônicos onde interessados podem buscar versão completa de obras indicadas para o concurso vestibular. Já se disse que o computador multiplica e democratiza os acessos em proporções jamais vistas. No caso do livro, a pergunta já é até quando o modelo editorial, baseado no papel, nascido nos alvores no mundo moderno, vai resistir.
As posições sobre o tema são variadas. Há os que falam que a exposição prolongada ao monitor pode ser prejudicial aos olhos. Mas há, do mesmo modo, quem ache necessário trabalhar, no ambiente escolar, o incentivo à leitura através do computador, argumentando sobre as vantagens de se explorar devidamente os ricos cruzamentos de informações que a máquina oferece.
Sou dos que acreditam no apelo do livro como um objeto de desejo – e acho que o formato tem vida longa, mesmo reconhecendo que o computador realiza, a seu modo, o sonho da obra que contém todas as obras. No seu caso, porém, a ponderação que Manolito faz a Mafalda teria o literal sentido da realidade. E perderia a graça.
Bom dia Professor,
Sempre acompanho seus artigos e os acho maravilhosos. Fui sua aluna na UNIFRA na Turma de 2007. Um abração.