
O diretor de Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen, ajusta cena do longa-metragem com com os atores Javier Barden e Scarlett Johanson
Em um filme de Woody Allen, nada acontece por acaso. E mesmo declarando que seu grande Ãdolo é o diretor Igmar Bergman*, Allen demonstra o seu processo criativo com construções cinematográficas muito bem planejadas e conscientes, baseadas em um tripé de temas que sustentam sua produção intelectual há várias décadas: conflitos interiores; personagens com alto QI e muita sensibilidade, mas sem um pingo de inteligência emocional; e a literatura como inspiração. (*Durante toda a vida o sueco enfatizou que seus filmes eram frutos de motivações inconscientes e os resultados finais eram obras do acaso)
Neste sentido, dois lançamentos traçam o perfil do cineasta norte-americano e, quando sorvidos em um curto espaço de tempo, se transformam em uma experiência instigante sobre o processo criativo de um artista: o filme Vicky Cristina Barcelona (em cartaz em Santa Maria) e o livro de entrevistas, Conversas com Woody Allen, de Eric Lax, Editora Cosac Naity. Um completa o outro, como facetas de uma mesma personalidade. O primeiro é o produto final, e o segundo é o como fazer. Com os dois juntos, o espectador-leitor delineia com clareza as inspirações do mais famoso dos nova-iorquinos e sua técnica em lapidar temas da atualidade sob a ótica de intelectuais de classe média, como artistas, escritores, jornalistas, pintores, professores, etc.
Vicky Cristina Barcelona, dirigido por Allen, não chega ser uma obra-prima da sétima arte, mas é cinema e dos bons. Pode se dizer que é um grande momento do artista em seu segundo auge na carreira. O primeiro foi entre o final dos anos 70 e o inÃcio dos 80, quando criou, em seqüência, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Manhattan (1978) e Hanah e Suas Irmãs (1986). O segundo é com o lançamento de seu maior sucesso de crÃtica e público, Match Point (2005), passa pelo sofisticado e complexo, O Sonho de Cassandra (2007), e se completa com o explosivo Vicky Cristina Barcelona (2008).
E assim como Hanah e Suas Irmãs é baseado na peça, As Três Irmãs, escrita pelo romancista russo Antón Tchecov, Vicky… tem sua grande inspiração literária em Henry James: um norte-americano naturalizado inglês que escrevia, basicamente, sobre o confronto entre o Velho e o Novo Mundo. No filme, Woddy Allen transpõe para a tela o racionalismo anglo-saxão americano se debatendo com a emotividade latina dos espanhóis, e vice-versa. De certa forma, é a batalha interior de todos nós, entre a razão e a emoção, no dia a dia de nossas vidas. Sutil.
Na trama, os personagens são sofisticados artistas e intelectuais, mas com angústias não originadas de situações concretas, e sim, vindas das profundezas de suas almas. Tipo a personagem que ao casar, queria também manter seu apartamento de solteira como sÃmbolo de independência, de um espaço somente para ela. Urbano, atual e complexo, mas tão dolorido como água fervente na pele. TÃpica inquietação da sociedade ocidental contemporânea, onde não basta somente amor, pão, circo e segurança para o ser humano. Tem que haver mais.
E isto fica bem claro no inÃcio de Vicky Cristina Barcelona, quando o pintor espanhol, Juan Antonio, interpretado por Javier Barden, aborda duas turistas norte-americanas em um restaurante de Barcelona, Vicky e Cristina, e dispara a queima-roupa, ou melhor, a primeira vista:
- Vamos à Oviedo. Lá comeremos pratos deliciosos, beberemos bons vinhos e faremos amor.
- Quem vai fazer amor? Pergunta entre a negativa e a ironia, Vicky.
- Se tudo der certo, nós três.
Tudo parece perdido com aquela impulsiva proposta do espanhol para duas frias estrangeiras, interpretadas por Scarlett Johanson e Rebecca Hall. Porém na cena seguinte, todos estão a bordo de um avião em busca de seus destinos e desejos. Este é o mundo atual que Woddy Allen apresenta. Com todas as contradições de cada um e cada uma das frases não ditas de nossa existência.
A partir deste ponto, o pavio de um barril de pólvora psicológico está aceso em um cÃrculo de poetas, pintores, escritores, músicos, fotógrafos e boêmios. Algo vai acontecer. Apenas o noivo recatado de Vicky não pertence a este mundo de personagens caracterÃsticos de Allen, que servem para mostrar como pessoas com grande sensibilidade e cultura podem se mostrar patéticas na hora de lidar com suas emoções, desejos e, é claro, frustrações.
Por outro lado, Conversas com Woddy Allen, do jornalista americano, Eric Lax, completa o filme (assim como todos os outros de sua extensa biocinegrafia) apresentando o processo criativo do diretor e roteirista de Vicky Cristina Barcelona. Mostra a fonte da água que ele bebe. O livro é resultado das melhores entrevistas, feitas pelo jornalista em nada menos, nada mais que 36 anos de pesquisa. A primeira foi realizada em 1971 e as outras ao longo da carreira de Allen, até o livro ser publicado nos EUA, em 2008. Lax brinca que é a mais longa entrevista de todos os tempos, e por isso mesmo, acompanhando o processo criativo do diretor ao longo de sua carreira, descrevendo as inspirações e a maneira como organiza seus temas e personagens. Para quem gosta de arte e, principalmente, de como se fazer cinema, é imperdÃvel. Bom filme e boa leitura.