Santa Maria, RS - Sábado, 31 de Julho de 2010.

Os irmãos Karamázov

Tags:
Postado por Jornal A Razão em Terça-feira, Fevereiro 10, 2009, 18:42
Esta notícia foi postada na categoria Colunistas, Vitor Biasoli e possui Nenhum comentário até agora.

Vitor Biasoli

Há uma idéia generalizada de que as leituras de verão devem ser necessariamente leves, puro entretenimento. Para aqueles que passam o ano envolvidos com leituras pesadas, então, isto é quase uma obrigação. Por outro lado, o verão (especialmente quando coincide com férias ou, ao menos, com um ritmo menos intenso de atividades) é um período que sempre pode ser melhor aproveitado. O tempo ideal para encarar um ou outro dos “100 autores que você precisa ler” (subtítulo de um guia de leitura editado pela L&PM), um ou outro dos “100 livros essenciais da literatura mundial” (título de um número especial da revista “Bravo!”). Tempo para sossegar a nossa consciência de leitor e enfrentar (ou concluir) a leitura do “Decameron” ou “Dom Quixote”, “Guerra e paz” ou “Crime e castigo”, e assim por diante. Livros que aprendemos a reconhecer como fundamentais (isto pra quem acha que a leitura de romances, contos e poesia é fundamental, claro) e para os quais muitas vezes faltou tempo ou disposição.

Acho que esse é um dilema que a maioria dos leitores enfrenta a cada verão que se inicia: o que priorizar, Platão ou Agatha Christie? Da minha parte, desta vez resolvi encarar um peso pesado como Dostoiévski: “Os irmãos Karamázov”. Li – e patinei na leitura, verdade seja dita – a recente tradução lançada pela Editora 34. Um texto, segundo o tradutor Paulo Bezerra, que busca recriar o estilo dostoievskiano: “às vezes meio tosco”, com períodos longos, volteios sintáticos bruscos e “pontuação pouco usual para mentes educadas pela chamada boa escrita”.

A narrativa é extensa, minuciosa, complexa e, claro, exige do leitor. Ao mesmo tempo, fascina devido à galeria de personagens e, especialmente, à trama cabeluda: o parricídio. Nesse sentido, torna-se quase um romance policial: o da investigação a respeito de qual dos filhos é o assassino. Como diz Ivan, um dos irmãos: “Quem não deseja a morte do pai? (…) Todos desejam (…). Não houvesse parricídio, e todos ficariam zangados e sairiam por aí furiosos…” (p. 888).

Pois encarei esse peso-pesado da literatura e lembrei de um antigo professor de filosofia que, uma ou outra vez, encerrou sua aula com uma referência ao livro. Ele citava o discurso final de Aliocha (o mais religioso dos irmãos), dizendo de que uma boa lembrança vivida e trazida da casa do Pai (do mesmo Pai que todos desejam matar) “só isso já nos poderá servir como salvação” (p. 996).

Uma leitura poderosa para os dias de verão. Leitura capaz de nos colocar em sintonia com grandes temas: a morte do pai e a busca da salvação. Uma e outra marcadas por dúvidas e sofrimentos que Dostoiévski narrava sem medo e com alguma volúpia, provavelmente certo de que é na investigação destes aspectos da vida que encontramos a nossa humanidade.


Você pode deixar um comentário, ou trackback do seu site.

Sem comentários para “Os irmãos Karamázov”

Deixar um comentário

*
Para enviar seu comentario, digite as palavras da figura abaixo.
Anti-spam image