Máximo Trevisan
Conta-se que, num fim de tarde, um cachorro, ágil e adestrado, entrou no açougue, trazendo um bilhete, na boca, com um pedido: que fosse mandado, pelo portador, uma dúzia de salsichas. Após cair em si, mesmo estranhando a demanda, o açougueiro percebeu que havia dinheiro junto ao bilhete. Separou, então, as salsichas, colocou-as dentro de um saco plástico com o troco do dinheiro recebido, e entregou a encomenda ao surpreendente cachorro.
Como já era hora de fechar o estabelecimento, resolveu ir atrás do cão e ver para onde levaria as salsichas. Ao chegar frente a uma bonita casa, o animal começou a forçar a porta de entrada. Não obtendo êxito, dirigiu-se à janela, mas o resultado foi igual. Aí, ainda com o pacote de salsichas na boca, pulou o muro ao lado e foi até o fundo da casa, ao encontro do seu dono.
Passados alguns instantes, apareceram os dois na frente da casa, o dono batendo no cão. O açougueiro, diante da agressão, que entendeu muito injusta, falou ao agressor, perguntando por que tratava assim quem o atendia de forma tão extraordinária, sendo capaz de ir buscar salsichas num açougue. A resposta veio pronta: “Já é a segunda vez que esse animal esquece a chave da porta da frente da casa, e eu tenho de vir abri-la por causa disso.”
Como todas as histórias, essa também tem a sua moral: por mais que você tenha um desempenho especial ou até sensacional, haverá quem entenda que você fez menos do que poderia ou deveria fazer! E também se pode concluir: por mais que você queira atender a todos e em tudo, sempre haverá quem entenda que esqueceu a chave, quando, na realidade, você tentou fazer o melhor!
Vale, ainda, pensar, especialmente quando você compara os amadores com os profissionais, que o desempenho dos profissionais será julgado sempre o melhor.Então, seria oportuno lembrar, por exemplo, que a Arca de Noé foi feita por amadores, enquanto o Titanic foi construído por profissionais. Todos sabemos qual afundou.
Essa história ouvi, no dia 30 de janeiro de 2009, na TV Gazeta, no final do Programa Papo de Amigos, quando passava uns dias de férias na linda e prazerosa praia de Camboriú. Hoje, ao lembrar o que ouvi e passá-lo ao papel, chego à conclusão de que, mesmo não passando de uma fábula, essa história traz uma mensagem muito real e verdadeira. Afinal, quantas vezes e em quantas ocasiões, eu/você já não fizemos o papel do cachorro, procurando o melhor e, mesmo assim, não recebemos pancadaria por palavras e sentimentos agressivos, não fomos destinatários de uma severa e ácida crítica, carentes de elogio?
Quantas vezes, tantos investem vida na construção de arcas , como simples operários amadores, enquanto outros, os construtores de Titanic, como “profissionais, os melhores”, tanto na área pública como na particular, levam ao desastre os convidados e quem pagou caro pela viagem? A crise atual não é, por acaso, resultado de profissionais, de especialistas, de construtores de Titanics, de líderes de mercado?
Pura verdade, amigo Máximo !
Mas poderia alongar sua brilhante crônica dizendo que para os grandes, os graúdos, os espertos ricos que fizeram os desastres financeiros, os governos providenciam com notável rapidez o socorro financeiro de bilhões de dólares com o apoio de deputados e senadores. No entanto, quando um funcionário público ou operário em apuros não pode pagar um empréstimo bancário, não pode resgatar uma promissória ou providenciar fundos para um pequeno cheque emitido levantam-se contra ele advogados, serviços jurídicos das corporações, cartórios de protesto, ações de cobrança judicial, leilão de sua casa ou seu automóvel, apontamentos no SERASA e no BACEN, etc…
Quanta injustiça tem em seu bojo este tratamento diferenciado ! Para o gatuno endinheirado ou relapso, as benesses oficiais ! A cadeia e a desmoralização pública para o pequenino !
James Pizarro
Florianópolis
Grande JAMES, muito bem lembrado, nem o ótimo cão escapou da regra: O ser humanom continua fazendo vergonha a seu CRIADOR.