Vera Pinheiro
verapinheiro@verapinheiro.net
Em certo dia do inÃcio do ano e no fim das minhas férias, choveu muito e a noite chegou cedo. Mais tarde, contrariando a suspeita de mau tempo duradouro, a lua se exibiu inteiramente bela no céu sem qualquer nuvem. Eu a contemplei como sendo uma homenagem aos olhos e um afago de luz ao coração e, então, pensei: quantos ainda olham o céu e se extasiam com o que veem? Quantos se extasiam ainda? Quantos ainda veem? Prisioneiras de suas angústias e sufocadas por pensamentos limitantes, hábitos caducos e conceitos de que não se desvencilham, as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas e perdem o espetáculo que a vida traz por meio das manifestações da natureza.
Durante a chuva intensa, demorei-me na janela a olhar um pássaro que tentava voar, embora tivesse as asas molhadas. Não sabia se ele estava bem ou se precisava de abrigo. Pensei em trazê-lo para dentro de casa, mas esperei ver se conseguiria voar sozinho. Acompanhei o seu esforço em não ficar paralisado, antes de tomar o rumo que me fez desistir do intento de ampará-lo.
Ele se equilibrava sobre o muro e pensei que pudesse estar doente. Porém, me surpreendeu ao sacudir rapidamente as asas frágeis para retirar a água de seu corpo delicado. Depois, voou para a copa de uma árvore, onde se encontraria mais seguro, e ali ficou até que a chuva serenasse.
Eu me revirava à procura de respostas para dúvidas acerca de um momento e o pequenino pássaro trouxe-me uma lição: quando a tempestade forte encharca os nossos sonhos, temos de nos permitir um tempo de análise até decidir o que fazer e para onde ir. Se ficarmos parados, inertes e sem coragem, a tendência será sucumbir à chuva implacável dos descontentamentos.
Ao nos sentirmos em estado de fragilidade, o vigor interno que nos abastece e anima deve ser reativado. Precisamos sacudir as asas, recuperar a vontade e voar na direção do que queremos! É de bom senso esperar que o temporal passe (e sempre passa), colocando-nos em posição que garanta sobreviver aos torvelinhos e que, também, nos fortaleça para voos lindos e sem amarras.
Somos pássaros humanos em busca do que almejamos. Não deixemos que nossas asas se percam, atrofiem ou pesem sobre nós, pois isso nos incapacita a voar. Nada detém o voo de quem sabe que, sacudindo o que atrapalha as situações, tudo fica mais fácil e leve como deverÃamos ser, livres para viver a plenitude que está ao nosso alcance, perto, no sonho que ansiamos por realizar.
O pássaro visitou a paisagem da janela e deu uma saudação à vida, mostrando que não importam quantas dificuldades atravessamos, mas o que aprendemos; que os problemas são mitigados se a fé não se esgota diante deles, que o futuro se apresenta como chance de felicidade não obstante a tristeza que abala o presente.
A confiança no que somos abre perspectivas de concretizar amanhã o que hoje não podemos. Nas circunstâncias que parecem derrubar o nosso espÃrito, olhemos em volta para descobrir um refúgio, mas a duração da permanência nele é o da cura das dores, mágoas, decepções, não a eternidade em que nos resguardamos, adiando o que é necessário ser feito por medo de enfrentar o novo, o vir a ser das novas experiências.
A vida não merece converter-se numa toca em que se enfiam ilusões sem resolvê-las. Até pode ser confortável esconder-se do mundo, mas isso não impede que ele gire, e o que nos transforma, malgrado fustigue a alma, serve ao nosso crescimento.
Entre um voo e outro, havemos de dar recesso à s asas do querer, um merecido perÃodo de descanso, um mergulho de introspecção para avaliar as metas, repouso à mente para amplificar o entendimento e, assim, redefinirmos caminhos a seguir e quais escolhas fazer dali em diante. Voar em torno do sofrimento sem vislumbrar o horizonte é impedir que alcancemos o que está a nossa espera. Voemos, pois, deixando que os outros voem em paz, mesmo que não sigamos juntos.