Pedro Brum Santos
Semana passada, lembrei o quanto uma expressão como a de Castro Alves, que no século XIX, bradava a necessidade de semear livros para transformar a inculta América, vai ficando defasada diante das possibilidades abertas pelo computador. A despeito de nossa grande defasagem de leitura, que continua atual.
Pois, nessa relação do livro com o computador, há um capítulo que diz respeito à infinidade de autores que se lançam diretamente através do meio eletrônico. Mais que isso: algumas vezes, depois de repercussão na internet, transferem suas propostas para o papel, numa prova inegável de que este rende prestígio e reconhecimento que o computador nem sempre alcança, embora sua possibilidade infinitamente maior de chegar a diferentes e numerosos públicos.
Entre os lançamentos de nosso mercado editorial que estão nessa linha, leio sobre “Para Francisco”, da publicitária mineira Cristiana Guerra, que leva o selo ARX, Saraiva.
A maior parte dos textos foi extraída do blog homônimo mantido pela autora e dirigido ao filho, Francisco. No diário virtual (e agora no livro) Cristiana apresenta ao pequeno a figura do pai, Guilherme, que teve morte súbita quando ela – a mãe – estava com sete meses de gestação.
Leio que “Para Francisco” é um livro triste mas não depressivo, o que talvez decorra do fato de a escritora focalizar a vida a partir da condição de viúva grávida. Trata-se, enfim, de falar, sem rodeios, dos medos de uma mulher frente ao recomeço, dividida entre a dor da perda e o zelo da gestação.
O que me pergunto é até que ponto esse tipo de relato tira sua força de uma forma de se colocar, de se mostrar, enfim, de um cavoucar em público para dentro de si, algo feito a partir de um modo de dizer informal, direto, como no diário recheado de fotografias, e-mails, letras de música. Tal como podemos conferir nos blogs que se multiplicam na internet.