Vitor Biasoli
Estive em Porto Alegre na semana passada e passei na frente do Colégio Rosário. Eu estudei nessa escola quando ainda existia bonde, pensei. Isto mesmo: bonde! Como estou ficando velho!
Em 1967, minha família se mudou para Porto Alegre, eu tinha onze anos de idade e fui cursar a primeira série ginasial no Colégio Rosário. Morava no bairro Floresta e todas as manhãs esperava o bonde numa calçada da Cristóvão Colombo. Uns dois anos depois os bondes saíram de circulação e por um bom tempo ainda ficaram os trilhos entre os paralelepípedos da rua. A cidade ganhou ares de metrópole, mas até o final dos 70 o centro ainda era um lugar elegante para a classe média. Mudou bastante ao longo dos 80 e hoje nem sei o que dizer. A Livraria do Globo não tem mais vitrines na Rua da Praia e só isto já me parece um índice significativo da transformação.
Mesmo assim, sou desses sujeitos que, quando vão a Porto Alegre, ainda acham graça pernear pelo centro da cidade. Gosto de andar pela Rua da Praia e invariavelmente meu caminho vai dar na Praça da Alfândega. Na semana passada, não foi diferente. Cheguei na praça e fui ao Santander Cultural ver com calma a exposição dedicada à Gilberto Freyre e à Ariano Suassuna, dois gigantes da cultura pernambucana, e depois almoçar na Casa de Cultura Mário Quintana.
Freyre não era valorizado nos 70, quando fui estudante de História, por conta da crítica marxista à sua posição política conservadora. “Casa-grande & senzala”, sua obra genial de 1933, eu só fui ler integralmente muitos anos depois de formado. Um livro “germinal”, como disse o próprio autor, pois traz o gérmen de toda a sua produção intelectual. Uma obra hoje considerada precursora da chamada história das mentalidades.
Depois fui almoçar na Mário Quintana e pedi o prato do dia, mais uma taça de vinho branco pra acompanhar. Veio um vinho simples e bom, que recordou o aroma de um outro, que bebi em janeiro de 77 em algum restaurante de Buenos Aires…
Que viagem no tempo! Me vi guri andando de bonde em 1967 (com “As aventuras de Tibicuera” na pasta escolar), um jovem de 21 anos bebendo vinho numa pizzaria de Buenos Aires, em 1977 (e que lia Ernesto Sábato e Eduardo Galeano), e agora um homem de 53 anos, olhando as paredes do hotel onde viveu o poeta Mário Quintana… E onde cursei, na metade dos 80 (antes das reformas que deram a feição elegante que a Casa hoje possui) uma oficina literária fundamental. Um curso que me liberou para a expressão escrita e me auxiliou nessa atividade que até hoje exercito: a do registro de histórias pessoais, com a pretensão de possibilitar que outros leitores encontrem a sua própria história, façam e refaçam seus passeios a Porto Alegre ou a outra cidade qualquer.
Olá querido Professor Vítor!!!! Parabéns pelo seu dia!!! Esta sua crônica me fez ter o mesmo sentimento… não o de estar envelhecendo, mas o de viagem no tempo. Porto Alegre é minha cidade natal, amo-a como a nenhuma outra que já pude conhecer. E desde que me lancei no mundo a residir e visitar outras cidades, é sempre com carinho saudoso que volto a capital. E, gosto também de ir caminhar no centro da cidade, bem como tu descrevestes que também o fazes. Inevitavelmente, meus passos sempre me levam à Rua da Praia, Praça da Alfândega, Margs, Casa de Cultura. Fiz este trajeto hoje! Me deu um saudosismo e uma certa nostalgia por não haverem mais livros na Livraria do Globo, ali na calçada. Fiquei feliz porque as barracas da próxima Feira do Livro já começaram a ser armadas na praça. Tomei um café sentada no Café dos Cataventos da CCMQ, fazendo anotações de meu conto atual e pensando em como a CCMQ entrou na história de minha vida, junto com os livros e a escrita para não saírem mais. Com alegria, sempre recordo de meu professor de contos, que me incentivou e encorajou a iniciar no belo caminho das palavras. Obrigada Professor! um abraço de sua aluna saudosa