Antônio Cândido Ribeiro
Estou quase entregando os pontos. Explico-me: periodicamente, sou assaltado por dúvidas – angústias quase, eu diria –, quanto a continuar meu solitário (e por vezes soli-dário) ofício de escrevinhador. Só que, diferentemente do atual momento, que já perdura por meses, as crises são passageiras, têm curta duração. Mal se instalam e logo surge um fato, uma idéia, uma inspiração, uma palavra e… tudo volta à normalidade.
Agora não, a sensação que tenho é de fim de festa, é de ressaca que não acaba, é de fastio de tudo que diz respeito a escrever. Uma crônica comum, banal, para ser parida, precisa de fórceps; um poema fica no primeiro verso; uma letra de música fica na primeira estrofe; um conto, no primeiro parágrafo. Sinto-me, mal comparando, como um jogador de futebol, desses que a gente sabe que não é craque, mas é bom jogador, com técnica e inspiração suficientes para uma tabelinha, para um passe longo ou para, na cara do gol, desviar a bola do goleiro com um toque sutil, e que, de repente, começa a errar passes de três metros; sem quê nem para quê, na hora do domínio, é engano pelo quique da bola, ela bate em sua canela e se oferece mansa, dócil, ao adversário; à toa, sozinho na pequena área, dá um bico pra fora ou chuta em cima do goleiro. É a tal crise técnica, que não se explica e que, vezes sem conta, vivem bons jogadores e até mesmo craques. Que vivem times pequenos e times grandes. No caso dos jogadores e dos times de futebol, o proble-ma se resolve com a continuidade, com a insistência, com paciência. Já no meu caso, como a crise técnica parece não ter fim, penso que é bobagem insistir, sob pena de comprometer a memória de alguns momentos de lucidez e de boas “jogadas” do passado mais ou menos remoto. É melhor que fique a boa imagem de crônicas bem escritas, de textos razoavelmente elaborados, prenhes, aqui e ali, de alguma criatividade e de literariedade.
Não, amiga, ainda não é um adeus, uma definitiva despedida, uma idéia (com a-cento) firmada e inamovível. Não, trata-se apenas do anúncio dessa clara e concreta pos-sibilidade. De resto, para permanecer na imagem futebolística, não tenho mais idade para ser promessa (que não acaba não se cumprindo), como jovens jogadores que surgem com a nítida potencialidade da “craqueza” e não se firmam, sequer, como jogadores medianos. Sei que nunca fui promessa de Eça, de Machado, de Pessoa, de Cesário Verde, de Dostoievski, de Camus, de Bandeira, de Rubem Braga ou de outros craques das Letras, mas também não nasci, imodestamente, disso estou convencido, para ser um perna-de-pau da palavra escrita. Assim, se começo a me comportar com um (perna-de-pau), é prudente parar, enfiar a viola no saco e ir cantar em outra freguesia. No caso, buscar outra forma de comunicação com o mundo e com meus semelhantes. A menos que, com urgência, a crise técnica suma no éter.