Máximo Trevisan
Estivemos, anos atrás, na bonita e progressista Blumenau, hoje sofrida cidade, vÃtima de uma tragédia que recentemente comoveu o Brasil inteiro. Fomos até a cidade da Oktoberfest para participar de um Congresso Nacional relativo ao Mercado Imobiliário. Não falaremos sobre os temas do Congresso, mas sim da necessidade e da importância da cultura do cordial e também do belo, que dizem respeito também à qualidade de vida como à felicidade de todos e da cada um.
Ao chegar a Blumenau (era meia tarde de um domingo ensolarado e frio), encontramos a cidade festivamente enfeitada, vivendo o clima da Oktober. Buscávamos o Viena Park Hotel, sede do Congresso. Longe do destino, numa sinaleira, baixamos o vidro do carro para perguntar ao motorista do automóvel ao lado o rumo para o hotel. Ele, que estava num Vectra com a mulher e duas crianças, sorriu para nós (eu estava com Eunice) e falou: “Daqui até o hotel é um pouco longe e não vai ser muito fácil chegar lá. Me acompanhem que eu levo vocês”. Assim aconteceu. Seguimos o casal até o hotel onde se despediram, não sem antes apontar, no caminho, a direção dos pavilhões da Oktoberfest.
Entramos, sorrindo, no aprazÃvel hotel, ainda envolvidos na carinhosa acolhida.Pensamos, então, no valor da sedução que decorre de uma cultura do cordial, praticada com espontaneidade, do jeito que vivenciamos em Blumenau. Não foi por nada que, no dia seguinte, lemos no jornal local o registro de um fato semelhante: um carioca que chegara para a Oktoberfest também demonstrava seu encantamento com a acolhida recebida.
O mundo atual não dá prioridade à cordialidade, mas descamba muitas vezes para a violência como atitude de ataque ou defesa. Confunde, com freqüência agressividade (um grave defeito) com coragem (uma grande qualidade). Ghandi foi um homem pacÃfico, cordial e, também, muito corajoso. Detestava a violência. É preciso distinguir o ser/estar cordial da prática do gesto calculado para obter vantagem, da cortesia interesseira, do sorriso mercadológico. A cultura do cordial importa na prática do gesto humano simples, na vontade de servir o outro gratuitamente, na acolhida ao forasteiro, dever, quando cumprido, que honra uma cidade e seus cidadãos.
A cultura do belo, também uma caracterÃstica de Blumenau, não é menos significativa do que a cultura do cordial. Cuidar da coisa pública até mais do que da particular deveria ser um propósito de cada cidadão. Assim, as ruas, as calçadas, os canteiros, os bancos da praça, as árvores, as flores, os postes, as marquises, tudo teria o cuidado de todos, desde crianças até os adultos.
Tornar os lugares públicos cada vez mais bonitos, respeitar o meio ambiente, zelar por ele, além de ser cordial, eis um dever de ofÃcio de cada cidadão para uma cidade cada vez mais cordial e bela! O zelo pelo coletivo deverÃamos beber no leite materno.
O gesto do casal de Blumenau, não só apontando o rumo, mas nos acompanhando até o hotel, ocupa espaço na nossa memória, de forma marcante. Afinal, assim deverÃamos receber a todos que visitam Santa Maria, assim deverÃamos cultivar a cultura do cordial e do belo, que custa tão pouco e rende tanto para o coração.