Sábado, Março 14, 2009 1:55

Vendedoras

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Postado por Jornal A Razão em Sábado, Março 14, 2009, 1:55
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Vera Pinheiro

Mal a gente bota o bico do sapato dentro da loja e a vendedora aparece: “Posso ajudar?!”. Solícita e formatada para esse tipo de abordagem, antes de conseguirmos balbuciar um “não, obrigada, estou só olhando” ela nos persegue e interfere a cada mínima demonstração de interesse por qualquer mercadoria. Sentimos um anseio figadal de pedir licença, mas ela insiste em nos fazer a corte! Algumas, por exagerarem na gentileza, apressam o nosso passo rumo à porta, sem nada em mão.

Compras que podiam ser prazerosas viram um martírio com uma vendedora ansiosa agarrada ao nosso pescoço. Mas não são essas as que me estressam e, sim, as que mentem descaradamente. “A senhora está linda!”. Três números a menos, a roupa me faz parecer cobra que engoliu um sapo, mas ela nega que estou horrorosa, como, aliás, estou vendo diante do espelho do provador, um cubículo com aquela luz que não ilude o assombro, a menos que se contradiga (com ilibadas provas) a realidade. A sensação, que não me escapa, considera de duas, uma: ou estou com a autoestima muito baixa ou ela é míope. Se ela enxerga tudo direitinho e, apesar disso, professa um elogio que, a olhos vistos, não mereço, então está mentindo na esperança de que eu leve qualquer coisa e deixe a comissão a que tem direito. Desconfio do produto a partir de quem o vende.

Outro tipo que está no caminho do consumo é a vendedora que não levanta os olhos do nada que está fazendo e simplesmente ignora a presença do cliente. A um pedido de informação ela aponta com o dedo e diz “está lá”, o que leva à desistência da procura, sem mais demora. Por onde entrou, o cliente sai e, dali, direto para o bom atendimento que encontra na concorrência.

E o que dizer da que incorpora a sofisticação do lugar em que trabalha e olha os outros com desprezo? Se indagarmos um preço, estando modestamente apresentadas, ela não responde, mas comenta: “É muito caro.”. Para quem? A rigor, somente pela aparência ninguém pode saber quantos dígitos tem a conta bancária do outro, e chega a ser divertido fingir condição de minguado para descobrir onde o tratamento não é discriminatório. É de fugir, e correndo, das que – sem disfarçar – olham a gente de cima a baixo, como se desejassem saber o que alguém “assim” estaria fazendo ali. Essas conseguem expulsar um potencial comprador com um olhar de “sai daqui”. E as sem noção, que insistem que um valor exorbitante é baratinho?

Há, também, as ofendidas: pedimos um desconto e elas fecham o tempo! Trazem uma conversa de “política da empresa”, que não nos interessa, para se negarem a uma negociação que poderia render um retorno em breve. Um centavinho? Nada! A casa ao lado pode ser mais flexível com a clientela e talvez não desdenhe quem não está bem arrumado e quem, previamente, diz o limite a gastar, nem um tostão a mais, sem ter como resposta uma cara de piedade ou, pior, enorme má vontade.

Difícil é nos desvencilharmos da que, mediante esforços vãos, quer empurrar mais do que desejamos e podemos. “Vou levar apenas isso” é uma espécie de senha para a vendedora enfatizar o discurso do “leva mais um”. Ela garante que não podemos perder o desconto, tampouco as prestações que se arrastarão pelo ano todo. Mas essa incomoda menos do que aquela que oferece coisas nada a ver conosco, jurando que vamos nos arrepender pelo resto da vida se recusarmos.

Evito perguntar o que significa, exatamente, um produto que é “a minha cara” e, não sendo consumista compulsiva, sei o de que preciso, assim como o que fica ótimo em mim. De todo modo, adoro vendedoras que facilitam em vez de complicar, que opinam quando solicitadas a acabar com as dúvidas, as que vendem boa imagem da empresa e certeza de qualidade, as que dispensam tanto a arrogância quanto a polidez que não convence, as que não nos veem como uma ponte para bater suas metas. E, sobretudo, as que nos ajudam a fazer boas compras com o dinheiro que não queremos desperdiçar, as que sorriem com sinceridade e as que realmente não se importam de baixar prateleiras para vender só uma pecinha. São as que fazem a maioria voltar, gastar de novo, muito mais e sempre!


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