Antônio Cândido Ribeiro
Não falaria sobre a excomunhão de médicos e familiares da menina pernambuca-na paciente de aborto legal (estupro) e terapêutico (grave risco de vida). Mas tanto li e ouvi sobre o tema que decidi repartir com os leitores excertos de textos lidos, os quais, pela contundência, pela percuciência da análise, merecem divulgação.
Começo, citando um “cordel” (A excomunhão da vítima), que circula na Inter-net, cujo autor é Miguezim de Princesa, do qual pinço a segunda e a décima e estrofes: “Pelas fogueiras que arderam / No tempo da Inquisição, / Pelas mulheres queimadas / Sem apelo ou compaixão, / Pensava que o Vaticano / Tinha mudado de plano, / Abolindo a excomunhão.” “E esta quem me contou / Foi Lima do Camarão: / Dom José excomun-gou / A equipe de plantão, / A família da menina / E o ministro Temporão, / Mas para o estuprador, / Que por certo perdoou, / O arcebispo reservou / A vaga de sacristão.”
Mas, o texto que, pela coerência e lucidez, mais me impressionou (se alguém qui-ser lê-lo na íntegra, e não tiver acesso a ele, me peça), de autoria do médico e escritor Dráuzio Varella, saiu no jornal “Folha de São Paulo” (caderno Folha Ilustrada) edição de sábado passado, dia 14/03. O articulista, que começa se solidarizando com seus cole-gas responsáveis pelo abortamento, às tantas, diz sobre a posição da Igreja Católica: “È uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho (sofrer para se purificar) em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal.” Mais: “Po-demos acusar a Igreja católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompa-tíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.(…) Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios re-ligiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres (…)?” Ainda: “Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada à sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embo-ra existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, (…), a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.” Ou: “Os males que a igreja causa á sociedade em no-me de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da ma-quinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.” E, na conclusão: “Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, ins-tituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proi-bições a todos nós.” Irretocável!
Não há como ficar alheio a este fato. A Igreja Católica está necessitando de uma reformulação urgente. Seus preceitos e dogmas estão indo de encontro aquilo que eles pregam. Perdão e tolerêncai nunca teve no dicionário prático desta igreja, mas sempre está nos sermões de seus clérigos para que seus fiéis pratiquem. Sou católico e há muito tempo descobri que esta Igreja que está aí não me serve, não sei o que fazer para mudá-la, acabei por me afastar e hoje só frequento seus templos para ir a batizados e casamentos. Me afastei e vejo que muita gente está se afastando. Neste diapasão, percebo que ao passar perto de uma Igreja na saída da missa são raríssimos os jovens, ou seja, a Igreja está perdendo seus fiéis… E, mais cedo ou mais tarde terá ela terá de rever seus conceitos, mas se esperar para fazer isto mais tarde os efeitos já não serão mais os mesmos.
Embora eu tenha muita religiosidade, não tenho nenhuma religião. Já em plena adolescência abdiquei de ter uma, não como um gesto de rebeldia, normal nessa faixa etária, mas como resultado de muita leitura, principalmente sobre a história da humanidade. Em virtude de fatos como inquisição, guerra santa, cruzadas, etc., acabei concluindo que se matou e continua se matando muito mais em nome das religiões do que propriamente salvando vidas. Passei então a comungar da idéia de John Lennon em sua canção Imagine, de que o mundo seria bem melhor sem elas. http://jobhim.blogspot.com/
Candinho, difícil entender esta atitude do bispo nordestino. Muito coerente com a teologia dos doutores da Igreja, mas incompreensível para a maioria de nós. Mesmo para quem tem um mínimo de simpatia pela Igreja.