Santa Maria, RS - Sábado, 31 de Julho de 2010.

O profissional e o homem

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Postado por Jornal A Razão em Terça-feira, Março 24, 2009, 1:42
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Padre Francisco Bianchini

Há poucos dias, assistindo a um programa de TV, deparei-me com uma entrevista com um famoso pianista que em acidente havia perdido os movimentos de uma das mãos e me comovi com seu testemunho de vida.
Em dado momento da conversa, a entrevistadora perguntou a ele, agora já recuperado do acidente e exercendo novamente sua profissão, como havia se sentido no momento em que percebeu que havia perdido os movimentos, o que lhe passou pela mente? Sem hesitar um instante e de forma serena respondeu: “naquele momento, dei-me conta de que havia morrido aí o profissional e nascia o homem”.
Que frase encantadora, mas desafiadora. Não é verdade que muitas vezes somos mais profissionais que humanos? Muitas vezes o fato de sermos profissionais faz com que esqueçamos o ser humano que somos.
Com certeza sofremos o perigo de nos tornar profissionais competentes, mas pouco humanos. Pode até acontecer que, pelo fato de sermos excessivamente profissionais, matemos o homem que há em nós.Quantas pessoas, no dia-a-dia relacionam-se a partir de sua profissão, esquecendo-se de que antes de serem profissionais, são pessoas humanas. Quantas pessoas vivem apenas como profissionais e, quando se aposentam, não sabem mais como viver e o que fazer porque fizeram da vida um mero exercício de profissão.

Você já não se deparou com uma pessoa super conhecida sua que, por causa da profissão e de certas circunstâncias e ambientes, faz com que você a desconheça? Na verdade, não haveria necessidade de conflito entre estas duas realidades, o profissional e o homem; pelo contrário, o homem que há em nós deveria ajudar-nos a ser profissional e o profissional ajudar-nos a ser mais pessoa humana.

Ainda mais complicado ficaria se, para ser cristão, alguém entendesse que seria necessário destruir o homem, quando, na verdade, o verdadeiro cristianismo vem reafirmar o ser humano em sua dignidade, delicadeza e sensibilidade, pois ele prioriza o amor, por isso mesmo, as relações humanas.

O depoimento desse cidadão, o pianista, fez-me refletir muito sobre a importância de investirmos no homem, e o período especial em que estamos vivendo, a quaresma, tempo mais importante do calendário litúrgico, é o momento mais adequado para isso. É o tempo de refazermos o homem, em nós, aquele homem que o pecado adulterou.

Desde o início, deste período, afirmamos que a etapa quaresmal quer nos levar a progredir no conhecimento de Jesus e compreender melhor seu imenso amor por nós, razão pela qual, somos convidados a ir ao deserto, que significa maior interiorização, mais recolhimento e, sobretudo, mais reflexão. O deserto (palavra simbólica) nos obriga a ficar frente a frente com nossa realidade, obriga-nos a tomarmos consciência de nossa fragilidade. O próprio Cristo deu-nos o exemplo indo para o deserto e lá permanecendo 40 dias.

O tempo da quaresma nos pede a simplicidade de coração para ouvirmos Deus. Podemos dizer que é o tempo para estarmos mais perto de Deus e mais tempo com Ele, com Jesus. Para isso precisamos nos embeber de seus ensinamentos, revestirmo-nos do espírito dos humildes e simples, dos famintos e sedentos de suas palavras, de seus gestos e de seu amor; experimentarmos seu amor gratuito e incondicional e não fazermos como os fariseus que o seguiam somente para criticá-lo, que tinham o coração endurecido, não tinham nenhum desejo de acolhê-lo, pelo contrário, rejeitavam-no e o contestavam sempre que podiam.

Para nos ajudar a estarmos com Cristo são nos oferecidos três caminhos: o jejum, que não significa apenas deixar de alimentar-se, ou diminuir a alimentação, mas de maneira especial, abster-se do egoísmo, do consumismo, do orgulho de todas as tendências que brotam do egoísmo, fonte de todos os males; a esmola, entendida, claro, no contexto atual, como a fraternidade, a solidariedade, a ajuda e a sensibilidade, especialmente, diante dos sofredores e pequeninos e a oração que, com certeza, é o caminho por excelência de encontro com o Senhor; não apenas através da oração verbal, ou de fórmulas recitativas, mas, como atitude de acolhimento, de estar com Ele, de ouvi-lo, de dialogar carinhosamente, de experimentar sua companhia, sua presença.

Como podemos ver, os caminhos para estarmos com Jesus não são tão difíceis, são possíveis, e este é o período ideal. Vamos, pois, aproveitar a quaresma para nos renovar e nos fortalecer na fé, no encontro com Cristo, a fim de que sejamos ótimos profissionais sem deixar de revelar a grandeza do ser humano que certamente habita em cada um de nós.


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