Santa Maria, RS - Sábado, 31 de Julho de 2010.

A pressa e o aprendizado

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Postado por Jornal A Razão em Quarta-feira, Abril 1, 2009, 11:33
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Pedro Brum dos Santos

Entre 2006 e 2007, em meio a viagens decorrentes de dever de ofício, incorporei uma rotina de aeroportos a que não faltaram, é claro, cenas da crise da aviação, tornada aguda entre nós naquela época.

Assisti ações ríspidas envolvendo passageiros, furiosos com atrasos, diante dos guichês das companhias ou nas salas de embarque. Nessas ocasiões, embora achasse que os reclamantes, em geral, tivessem toda a razão – e muitas vezes, afinal, eles estavam brigando por mim também –não conseguia deixar de pensar o quanto ficamos todos apressados nos tempos atuais. Para uma parcela significativa da população é custoso admitir qualquer tipo de espera ou adiamento. O avanço da técnica – tão maravilhoso em certos aspectos – trouxe-nos a moléstia da pressa. Vivemos sob a ditadura do aqui e agora.

Nicolau Sevcenko, professor de Historia da Cultura da USP, observa que esse apressamento é mais grave ainda nos campos do conhecimento, justamente porque gera imobilismo, sensação de que é impossível refletir, explicar, compreender. Diante da lógica da pressa, os fenômenos parecem absolutos, indevassáveis, inexplicáveis mesmo. Num livro chamado “Corrida para o século XXI” (a obra é de alguns anos e acaba de ser reeditada pela Companhia das Letras), Sevcenko brada contra o que classifica como imobilismo contemporâneo.

Palavras do autor: “no ritmo em que as mudanças ocorrem, provavelmente nunca teremos tempo para parar e refletir, nem mesmo para reconhecer o momento em que já for tarde demais”. Sua tese é de que a crítica precisa exercer – de forma mais eloqüente – o papel de contrapartida cultural diante da técnica, dialogando com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e atentando para seus desdobramentos. O problema, na visão do pensador, “não é nem a técnica e nem a crítica, mas da síndrome do loop, que emudece a voz da crítica, tornando a técnica surda à sociedade”.

Em português, um dos significados do inglês loop é acrobacia aérea. Eis a instigante lição de Sevcenko: nesses tempos vertiginosos, compreensão e aprendizado ainda requerem o velho e bom ritmo do passo a passo.


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