Vitor Biasoli
Na semana passada, Richard Falk, relator especial da ONU para direitos humanos nos territórios palestinos, apresentou o número de vítimas provocado pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, em dezembro e janeiro passados. Houve 1.434 mortos, sendo 960 civis, durante os 22 dias de bombardeio. Israel, por sua vez, teve 13 mortos, sendo 3 civis.
Nas notícias dos jornais brasileiros on line sobre o relatório de Richard Falk (publicadas na semana passada), não encontrei o número de feridos. Observadores internacionais, no entanto, falam em 6.000 – a grande maioria civis e, dentre eles, um número enorme de crianças. O relatório aponta uma série de crimes de guerra cometidos pelo Estado de Israel (isto é, ações militares que violam a Convenção de Genebra), como ataque a escolas, mesquitas e ambulâncias palestinas (algumas da própria ONU), mais o uso de bombas com fósforo branco (as A825AI de fabricação norte-americana), proibidas de serem utilizadas em alvos civis.
Segundo o relator, a ofensiva militar das forças armadas israelenses não foi legalmente justificada e por isto sugere que o Conselho de Segurança da ONU crie um tribunal penal para estabelecer responsabilidades. O que não irá acontecer, claro – ou o leitor tem alguma dúvida a respeito?
Endossando o massacre apontado pelo relatório de Richard Fark, soldados israelenses que participaram da operação militar têm afirmado que “houve casos em que militares mataram civis inocentes, danificaram propositadamente propriedades palestinas” e que receberam sinal verde de oficiais superiores para isto. As declarações foram publicadas na imprensa israelense e levaram o procurador do Exército a se pronunciar oficialmente e ordenar uma investigação.
Escrevo isto lembrando dos meus colegas judeus, nos anos 70, que foram morar em Israel. Um deles chegou a participar de treinamento armado – “para que não se repetisse mais a passividade dos judeus frente aos nazistas”, ele explicava – e que há anos não quer tocar no assunto. No verão, cruzei com uma amiga judia num shopping porto-alegrense e conversamos longamente. Ela morou num kibutz israelense em 1975-76 e, quando fomos falar desse antigo entusiasmo dela, ela pediu para pularmos essa parte. “Este Estado de Israel que está aí não é o que sonhei”, ela falou. O sionismo foi uma alternativa para a sobrevivência de um povo oprimido e hoje perde completamente a credibilidade.
Tornou-se um nacionalismo como outro qualquer. Capaz, como qualquer nacionalismo quando levado ao extremo, quando armado até os dentes (como é o caso de Israel, o quarto maior exército do mundo), de proporcionar as maiores atrocidades – como a que ocorreu na Faixa de Gaza, nos meses de dezembro e janeiro últimos.
Não esquecendo que existem várias ditaduras sanguinárias entre os 192 paises membros da ONU. Razão pela qual a ONU é sempre muito ágil em defender direitos humanos de bandidos e terroristas e mais ágil ainda em condenar o direito de legitima defesa de países democráticos como Israel.