Quarta-feira, Abril 1, 2009 11:34

Vítimas da Segunda Guerra Mundial

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Postado por Jornal A Razão em Quarta-feira, Abril 1, 2009, 11:34
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Vitor Biasoli

Uma entrevista do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, provocou uma polêmica interessante na semana passada. A entrevista foi publicada pela revista “Press & Advertising” e nela o arcebispo afirma que os judeus não foram os mais sacrificados durante a Segunda Guerra Mundial, pois o número de católicos mortos foi muito maior. As lideranças judaicas protestaram e o arcebispo remendou. Disse que não estava negando o holocausto, mas lembrando que os judeus não foram as únicas vítimas. Os ciganos foram massacrados, os homossexuais idem e pouco se fala a respeito deles, acrescentou.

Também afirmou que houve outros massacres no século XX, como o provocado pelo sistema soviético (110 milhões, segundo o arcebispo), e é só dos mortos judeus durante a Segunda Guerra que se fala.
Não tive acesso ao texto do arcebispo, mas apenas a sua repercussão na imprensa de Porto Alegre e também a resposta que ele deu ao presidente da Federação Israelita do RGS. No texto que desencadeou a polêmica, o arcebispo se refere a vários assuntos do mundo contemporâneo e a questão das vítimas do nazismo é apenas uma parte. No entanto, como é assunto polêmico (desses que um professor de História não pode se furtar), resolvi comentar.

E começo por uma visão equivocada que está se consolidando a respeito do Estado hitlerista: de que este Estado se definiu exclusivamente pela perseguição aos judeus. Um entendimento que aparece, por exemplo, nos comentários a respeito do filme “Operação Valquíria” (que recentemente passou nos cinemas da cidade). A fita retrata a conspiração liderada pelo coronel Von Stauffenberg para matar Hitler e li um crítico de jornal dizer que isso ocorreu devido ao horror que a Alemanha hitlerista praticava: o extermínio dos judeus. Ora, isto era o que menos importava para o aristocrático coronel e seus camaradas (o general Rommel, entre eles). Para os conspiradores, a questão central era o fracasso militar do projeto nazista e a submissão do Estado-Maior aos delírios de Hitler. Ideologicamente (nos itens superioridade ariana, culpabilização dos judeus quanto aos problemas da

Alemanha e caráter policial do Estado nazista) não havia divergência. O Estado nazista era muito mais do que perseguir judeus, seu projeto era o de construir um domínio sobre a Europa, onde todas as raças inferiores ou grupos religiosos e políticos indesejáveis seriam escravizadas e até eliminados.

A polêmica desencadeada pelo arcebispo de Porto Alegre – basicamente, o lugar dos católicos entre as vítimas do nazismo – me parece que cria a possibilidade de discutir o assunto. Afinal, nos campos de concentração da Alemanha nazista, morreram 10 milhões de pessoas. Desse total, calcula-se que quase 6 milhões eram judeus. E os outros 4 milhões? Outra coisa, os massacres não ocorriam apenas nos campos de extermínio (caso da cidade de Kharkov, em 1941). Dizer isto, não é negar o holocausto, mas estabelecer o lugar dos diferentes grupos (étnicos, políticos, religiosos e sexuais) que o nazismo oprimia e até eliminava fisicamente.


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