Sábado, Abril 18, 2009 10:40

A coragem no varejo

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Postado por Jornal A Razão em Sábado, Abril 18, 2009, 10:40
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Máximo Trevisan

A coragem entre os homens, quando destacada, tem fundamento no comportamento superlativo, em ato de bravura excepcional. O bombeiro que salvou do incêndio a criança presa no alto do edifício; o militar que lutou pela pátria em campo de guerra; o líder que conduziu o país à paz, atravessando uma convulsão social; o político que levou para a independência o seu povo– esses recebem o título de heróis e a medalha de melhores dentre os seus pares.

Quero destacar hoje a coragem no varejo, os pequenos/grandes atos de intrepidez pessoal, a ousadia anônima, a coragem que leva à outra margem do rio, ao outro lado da vida, à conversão de rumos, ao redirecionamento do sentido da existência.

Pular de para-quedas, correr na Fórmula Um, lançar-se ao mar com um barco para atravessar o oceano, pilotar um avião com a velocidade do som, esses e outros atos são considerados comportamentos corajosos. Olhemos para as medalhas e suas motivações e logo entenderemos como e por que são outorgadas, na sociedade, aos que as recebem.

E a coragem no dia-a-dia, aquela que constrói a identidade de cada um, a auto-superação dos próprios defeitos, o combate à dor insuportável e insuperável nos hospitais e nos lugares mais recônditos, em cada lar, como é percebida e valorizada? Aliás, é reconhecida como ato de bravura?

Decidir rever a própria vida, avaliar os valores muitas vezes consolidados, caminhar dentro do próprio coração à busca da descoberta da sua identidade, esses não são atos de coragem?

Pedir perdão (mesmo engolindo a vontade de fazer o contrário), abraçar o desvalido, saber ouvir (quando a raiva dita a vontade de gritar), praticar a ternura, vencendo a agressividade, esses não são de coragem?

Servir o outro com alegria e disponibilidade interior, no cotidiano da vida ou do hospital, vencer o egoísmo, esses atos não são atos de coragem?

Aceitar a vida como ela é, uma (a)ventura humana, ensinar as primeiras letras, ser Teresa de Calcutá na miséria do lar sem pão/sem afeto/sem futuro, semear a fé e o amor sem esperar que cresçam e floresçam, mas continuar semeando sempre, entregando o melhor dos seus dias aos outros, esses não são atos de coragem?

Eu sei – tu sabes melhor do que eu – a vida é tão exigente às vezes, as forças diminuem, o gás termina, tudo parece anunciar o ponto final. Aí tens vontade de repetir o que um caudilho rio-grandense falou, às portas da morte, diante de um companheiro que o animava: “Coragem eu tenho, o que me falta é o ar”. Para muitos o ar é falta de saúde, a carência de dinheiro, o desafio cotidiano, o desastre a prestações iguais e sucessivas … Aí importa escorar-nos na força da humanidade e da fé.

Creio que o essencial não é alienar-se, mas fazer o exercício da lucidez consentida, descobrindo que o saldo negativo cresce não raro porque nos esquecemos de creditar na conta-corrente os atos de coragem no varejo, que tornam a todos dignos de viver.


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