Vera Pinheiro
Depressão não escolhe sexo nem idade. É um mal que ataca qualquer um e, muitas vezes, seus sintomas são confundidos com tristeza ou humor debilitado. O estado depressivo impede que nos vejamos com inteireza. Faz com que tenhamos foco apenas nas sombras, na falta de objetivo e na ausência de perspectivas. O pessimismo invade e arrebata, e simplesmente não conseguimos vislumbrar o que há de bom em torno nem reconhecer o lado feliz da vida.
Se nos chamam para sair, recusamos. Se saímos, acabamos aborrecidos. Se pensamos em procurar alguém, logo recuamos. Vemo-nos como pessoas desajeitadas e nos envolvemos numa angústia de estar no próprio corpo. Julgamo-nos indignos do amor e incapazes de despertar sentimentos agradáveis nos outros. Então, nos recolhemos em uma toca emocional, contabilizando amarguras e pensando no que perdemos, no que podíamos ter sido, no que deixamos de ter. Desaparece a noção de nós mesmos e não sabemos mais qual é o nosso caminho. Nada nos atrai o bastante para nos tirar desse torpor.
Há, na depressão, o componente somático, por isso é importante um tratamento médico: para cuidar do lado físico da dor. Em paralelo, é necessário reaver a disposição de viver, e esse é um trabalho individual combinado com ajuda especializada, que visa a acabar o ciclo repetido de sofrimento.
Quando sentimos desconforto em relação a uma dor, ela está começando a terminar, e os sinais de que empreendemos retorno ao bem-estar é nos incomodarmos com sucessivos lamentos sem solução e a identificação de cansaço por estarmos com a cabeça entre as pernas, debatendo-nos em lágrimas e queixas. Chega, então, o dia em que a luz se faz! É quando descobrimos que o conforto da toca não resolve a situação; quando compreendemos que se não dermos um grito de liberdade da dor, ela não vai passar; quando percebemos que se nos mantivermos recolhidos na amargura, ela nunca vai acabar, e que precisamos, enfim, começar a viver de novo.
O período de acolhimento, que é natural, não deve ser prolongado demais, e, antecedendo o momento da ruptura do estado doloroso, a confiança de que somos capazes de nos superar e de que temos muito mais coragem do que podíamos supor. Ao romper a letargia, abrimos a janela e olhamos para fora sem medo do convívio com os outros.
Nada acontece de repente, devemos respeitar o ritmo de nossa recuperação. Seria como se espreguiçar pela manhã. Não pulamos da cama; antes, abrimos os olhos. Os pés saem primeiro, depois nos sentamos e a seguir nos levantamos. Assim é a saída da depressão, que não é linear, como não o é o ato de ficar em pé depois de um longo sono. Os “cinco minutinhos a mais” que nos concedemos ao acordar equivalem às idas e vindas que fazem parte da tentativa de sair do fundo da depressão.
Nada vai se transformar num segundo. O desenrolar desse processo requer tempo e persistência, e demora reconstituir todos os interesses. Essa construção deve ser erigida sobre bases sólidas para não haver recaídas. Não será de imediato que os amigos voltarão, que as atividades serão retomadas, que outro amor vai surgir. Mas as portas estão abertas e a vontade proporcionará encontros com novas possibilidades. Depois desse aprendizado, feito dia após dia, ao olharmos um dia nublado não diremos: “que pena não ter sol”, mas, sim, “que lindas nuvens enfeitam o céu”. Afinal, muda o nosso olhar sobre os acontecimentos e vislumbramos não apenas infortúnios, mas também a alegria e a gratidão de estar aqui e agora, sem amarras ao que passou e sem nos pendurarmos no que ainda não veio ou não aconteceu.
Sei que é difícil (mas não impossível!) sobreviver a perdas e sei, também, que é prazeroso buscar (e encontrar) alternativas de felicidade. Residem em nosso peito forças que podemos acionar, coragem que devemos recobrar, ânimo para recomeçar. Tendo amor por nós mesmos, não deixamos que os problemas nos impeçam de viver. Colocamo-nos como meta prioritária, nos erguemos com firmeza e rejeitamos a desconfiança de que não somos capazes de nos refazer. Vencer a depressão é voltar a agir, recomeçar, se reencontrar e fazer um esforço bem-sucedido a favor da própria felicidade.
Excelente texto. Vem ao encontro do meu pensamente a respeito de pessoas que tentam, através de diferentes e perigosas pílulas, nos manterem em um nível de estabilidade emocional transformando-nos em uma espécie de robô. http://jobhim.blogspot.com/