Máximo Trevisan
Conta-se que um velho Rei, tido e havido no Reino como sábio, estando quase à morte, chamou o seu filho e sucessor, pois desejava entregar-lhe um testamento com o último desejo e vontade. Assim aconteceu. O Rei entregou dois envelopes ao Príncipe: um, de cor vermelha, para ser aberto somente quando estivesse passando por momentos de grande dificuldade, angústia e indecisão sobre o caminho a tomar, para não cair em desespero; o outro envelope, de cor azul, o Príncipe deveria abri-lo somente quando estivesse vivendo intensa felicidade.
Pouco tempo depois, o Rei faleceu. Os envelopes foram guardados como um tesouro. Passaram-se alguns anos, e o Reino começou a viver um período de vacas magras, de revolta popular, de críticas e de intrigas na Corte. Diante da situação, veio à lembrança o envelope vermelho, que era para ser aberto quando estivessem presentes essas circunstâncias. O Príncipe abriu, então, o envelope com todo o cuidado. Dentro dele, encontrou apenas um cartão com os dizeres: “Vai mudar!” O tempo foi passando, e a realidade mudou, deixando para trás a treva, a angústia, o desespero.
O futuro, que se tornou presente, deu ao Reino sol e harmonia. A Corte e os súditos cultivavam a esperança, a alegria promovia festas, o progresso era uma realidade. Então, o Príncipe se lembrou do segundo envelope. Não podia ter duas atitudes, pensou: ontem, abrira o envelope de cor vermelha; agora, era a hora da cor azul. Tomado de coragem, abriu o segundo envelope, e dentro havia um cartão com os dizeres: “Vai mudar!”
O jovem Príncipe aprendeu uma inesquecível lição: a sabedoria da vida estava em entender o sentido das palavras do velho pai. No mundo nada é definitivo, concluiu, ora o ser humano está em Alfa, ora em Ômega, ora em águas plácidas, ora em revoltas, ora em céu de brigadeiro, ora em tempestade. Importa, em qualquer circunstância, não tomar o transitório como permanente, o aparentemente insolúvel como sem solução. Ora, o mundo oferece aos amantes ora uma lua-de-mel, ora uma lua-de-fel. Na roda-gigante da vida há momentos de subida e de descida, mesmo sentados no mesmo lugar. Às vezes, recebemos o sim; às vezes o não. Há bumerangues e resiliências que surpreendem a todos, mesmo aos prevenidos.
Assim, quando a dor, a injustiça e o desespero chegarem, vale muito pensar: “Vai mudar!” Quando a felicidade se instalar em nós, especialmente se intensa e apaixonante, é bom lembrar: “Vai mudar!” Às vezes, sim; às vezes, não!