Lizie Antonello
Nos últimos cinco dias, militares brasileiros e argentinos estiveram unidos por um objetivo: proteger o espaço aéreo nacional. Durante a Operação Prata, controladores de vôo e pilotos das Forças Aéreas Brasileira (FAB) e Argentina (FAA) puderam treinar situações reais de ‘invasão’ do território na região de fronteira entre os dois países.
O exercício envolveu 140 militares e cinco aeronaves brasileiras, 110 argentinos e oito aeronaves. Além de helicópteros e aviões de resgate. Só da FAB, foram mais de 40 idas e vindas entre Santa Maria e Posadas, no país vizinho.
Nas simulações, aviões monomotores usados para transporte de passageiros e cargas entravam sem permissão no território do outro país. Elas eram detectadas pelos controladores, através dos radares e interceptadas por aviões de defesa. Normalmente, aeronaves do tipo são utilizadas no tráfego de drogas.
Conforme o tenente-coronel Douglas Wagnitz, que coordenou a Operação no Brasil, a prática não é comum no Rio Grande do Sul, mas em cidades da fronteira com a Bolívia e o Paraguai. Segundo ele, ao menos uma aeronave decola diariamente para averiguar a presença de aviões voando de forma irregular no espaço aéreo brasileiro. “A maioria dos casos é de fazendeiros ou pilotos que não fizeram plano de voo ou documentação”, constata Wagnitz.
Mas, caso recente em Rondônia comprova que os pilotos precisam estar preparados. No dia 3 de junho, um avião boliviano foi detectado pelos radares brasileiros sobrevoando Rondônia. Ele foi interceptado, mas não seguiu a ordem de pousar e tentou retornar ao seu país. Depois de realizar todos os procedimentos, sem sucesso, o avião brasileiro disparou tiros de aviso. O piloto boliviano pousou em local diferente do indicado. No avião foram encontrados 170kg de pasta de cocaína.
“A Operação é importante porque desenvolve essa cooperação entre os países. Os controladores criam o hábito de avisar quando percebem que um avião vai ‘invadir’ o outro país”, salienta o piloto Ricardo Kabzas.
A Operação em números
Aeronaves – 16
Brasileiras – 7 (3 A-29 Super Tucano; 2 C-98 Caravan; 1 SC 95B Bandeirante e 1 helicóptero H1H)
Argentinas – 9 (5 IA-58 Pucará; 2 PA-34S Seneca; 1 PA-28D Dakota; 1 helicóptero Bell 212)
Radares – 5
Brasileiros – 3 (Santiago, Santa Maria e Silveira Martins – móvel)
Argentinos – 2 (Posadas e Resistência)
Militares – 250
Brasileiros – 140
Argentinos – 110
Voos – 12 do Caravan e cerca de 30 do Super Tucano
Horas de voo – ainda não havia sido contabilizado pela FAB até o fechamento da edição
Km percorridos – aproximadamente 14.700 (cálculo baseado no número de voos e distância entre SM até Posadas – 350km)
Eles participaram da operação Air France
Dois militares brasileiros que atuaram nos bastidores da Operação Prata participaram do trabalho de busca e resgate às 228 vítimas do acidente aéreo do voo 447 do Airbus da Air France, que ocorreu no dia 1º de junho, quando fazia o trajeto Rio-Paris.
Da quarta-feira seguinte ao desaparecimento da aeronave e por uma semana, o major Ronaldo Venâncio e o soldado Cristian de Andrade Benevides do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, em Brasília, permaneceram em Fernando de Noronha e tiveram missões diferentes e igualmente importantes. O major foi um dos interlocutores entre comando da operação e cerca de 70 jornalistas do Brasil, França, Inglaterra e Alemanha, entre outros. “Achei que não iriam encontrar corpos, porque já houve acidentes bem mais próximos a ilha em que não foi encontrado nenhuma vítima”, declara Venâncio.
O trabalho do soldado foi documentar as buscas feitas pelos aviões da Força Aérea Brasileira. Ele é cinegrafista do setor de comunicação da FAB e acompanhou as equipes nos voos, dez horas por dia, durante uma semana, a 300 metros de altitude. “É uma situação muito difícil só víamos destroços”, relata Benevides.
No céu ou na terra
Durante a realização da Operação Prata tive a oportunidade de estar mais uma vez no ar. Guardadas as devidas proporções entre um balão e um monomotor, a sensação de estar voando é igualmente incrível. Algo que pude perceber em viagem, anos atrás, revivida agora com ‘pitadas’ de aventura. Vai ao encontro da busca que o homem, ao longo da existência, tem em desbravar todos os meios e alcançar todos os espaços. Por que deveríamos nos contentar em ficarmos ‘presos’ a terra?
Apesar de contestado por muitos – afinal, não temos asas ou nadadeiras – o questionamento nos levou a uma jornada. E como resultado, ganhamos as águas – rios, mares e oceanos – e o céu – o espaço. É certo que há muito a explorar. Ainda muitos mistérios e descobertas a fazer. E é essa inquietação humana, essa busca incessante por ir além, que vai nos levar ao que hoje ainda nos é desconhecido.
De minha parte, tento descrever o indescritível. Impressão curiosa. Vistas de cima, denso, ao longe, o aglomerado de nuvens, no começo da tarde da última quarta-feira, lembrava uma geleira, dessas existentes nos círculos polares. O sol, encoberto no início do vôo pelo nevoeiro, logo se mostrou soberano, majestoso. Mais um presente da natureza. Desses que temos diariamente e de tão (mau)acostumados nos passam desapercebidos.
O exercício militar foi também um exercício pessoal. Durante alguns momentos, enquanto voávamos, pude lembrar o quanto é importante podermos parar por alguns instantes que seja, literalmente, esse ritmo frenético que vivemos no dia-a-dia, e prestar atenção no que está sim ao alcance dos olhos e das sensações. Respirar fundo e perceber a natureza a nossa volta. As árvores, o movimento das aves, o vento tocando no rosto, o calor do sol, a água da chuva. E se nada mais restar de verde ao entorno, nenhum som de pássaro, nem vento soprando, nem sol, nem chuva, então apenas olhe para o céu e contemple. Você também vai se sentir livre.