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	<title>ARAZÃO &#187; Vitor Biasoli</title>
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	<description>A Razão 75 Anos</description>
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		<title>A Feira do Livro como tentação</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Apr 2009 14:02:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vitor Biasoli
Fui passear na Feira do Livro no sábado de manhã. Fui pensando em como escolho os livros que compro. E, mais do que isso, os livros que adquiro e leio integralmente. Sim, porque há títulos, infelizmente, que são comprados com entusiasmo e não são lidos até o fim.
Em relação a essas obras adquiridas e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Fui passear na Feira do Livro no sábado de manhã. Fui pensando em como escolho os livros que compro. E, mais do que isso, os livros que adquiro e leio integralmente. Sim, porque há títulos, infelizmente, que são comprados com entusiasmo e não são lidos até o fim.</p>
<p>Em relação a essas obras adquiridas e não lidas – um hábito comum (e estimulado) na sociedade de consumo –, corre a lenda de um livreiro nova-iorquino que colocou um pequeno cartão no meio das páginas de “O nome da rosa”, na época em que o romance vendia como pão quente. No cartão, ele anunciava que o leitor que chegasse até aquela página (correspondendo à metade da obra) mereceria um prêmio e era só aparecer na livraria para recebê-lo. Mas nenhum leitor apareceu&#8230;</p>
<p>Pois fiquei pensando nesse assunto – a estranha atração por livros –, enquanto caminhava entre as barracas da Feira.</p>
<p>No verão, entre outras leituras, tracei “Os detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, porque dois amigos me fizeram uma baita propaganda do romance. Realmente uma obra genial a respeito da geração de latino-americanos que padeceu as mazelas do ciclo das ditaduras militares. Para a leitura desse livro, a dica dos amigos foi fundamental. No momento, estou lendo “O livro das religiões”, de Jostein Gaarder e outros dois autores, porque conversei com mais de um aluno, nos últimos meses, que leram entusiasmados essa obra. Gaarder se tornou mundialmente famoso com “O mundo de Sofia” e resolvi encarar. O tema das religiões é complicado e é admirável quando se encontra o assunto tratado com clareza, como no caso desse livro de divulgação.</p>
<p>Como o leitor pode ver, a indicação de amigos e alunos funciona comigo – somada, claro, às resenhas de jornais e revistas. Trato com uma série de motivadores a me conduzir até a livraria e à barraca da Feira, que é preciso estar atento para não escorregar na primeira tentação.</p>
<p>No meu caso, o cinema é ainda outro fator a me despertar para este ou aquele livro. No mês passado, assisti ao excepcional “O leitor” e me comovi com o drama da mulher envergonhada com sua condição de analfabeta. Vi que o filme era baseado num romance e fui conferir. Não achei o livro ruim, mas o filme, seguramente devido à interpretação de Kate Winsley (encarnando a mulher analfabeta), é mil vezes superior.</p>
<p>Pensei essas coisas caminhando pela Feira, no último sábado. Senti como minha curiosidade é atraída tanto por uma reedição de “Prosa dos pagos”, de Augusto Meyer, quanto pelo último romance de Bukowski. Pensei então, mais uma vez, que a Feira é uma tentação. Uma tentação bendita, mas tentação mesmo assim, capaz de me envolver num oceano de delícias&#8230; e de algumas pequenas aflições.</p>
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		<title>Feira do Livro 2009</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 13:23:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Biasoli]]></category>
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		<description><![CDATA[Vitor Biasoli
A Feira do Livro deste ano coloca em cena três figuras admiráveis: o patrono da Feira, Humberto Zanatta; o patrono da Feira Infantil, Byrata; e o escritor homenageado, Luiz Guilherme do Prado Veppo. Os três com intensa participação nas atividades culturais da cidade.
Em 1998, eu estava envolvido com eles na produção de um pequeno [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>A Feira do Livro deste ano coloca em cena três figuras admiráveis: o patrono da Feira, Humberto Zanatta; o patrono da Feira Infantil, Byrata; e o escritor homenageado, Luiz Guilherme do Prado Veppo. Os três com intensa participação nas atividades culturais da cidade.</p>
<p>Em 1998, eu estava envolvido com eles na produção de um pequeno livro, chamado “Quarteto in prosa e verso”. O livro reunia crônicas e poemas de quatro amigos (Prado Veppo, Humberto Zanatta, Orlando Fonseca e eu) e o Byrata era o responsável pela parte gráfica do trabalho. Dois anos antes, nós quatro havíamos feito um outro livro coletivo (“Quarteto in verso”) e o resultado visual fora sofrível. Então decidimos convidar um artista para a produção gráfica e entramos em contato com o Byrata. Ele fez a diagramação dos textos, a arte final do livro e o resultado foi excelente – pena que a gráfica, ao imprimir o material, matou o requinte da criação. Mesmo assim, o livro ficou superior ao que fizéramos em 96.<br />
O livro foi feito em algumas semanas e o ateliê do Byrata funcionou como QG da produção. O Veppo apareceu lá diversas vezes e, junto com o Byrata, fez pequenas alterações nos seus poemas: a troca de uma palavra e outra, o aprimoramento de um verso aqui e ali, essas coisas. O Byrata demorou um pouco pra finalizar o trabalho e nós ali, na expectativa, temerosos de que o material não entrasse na gráfica em tempo hábil para o dia do lançamento na Feira.</p>
<p>Numa manhã de sábado, o Veppo e eu nós reunimos no ateliê no Byrata (na verdade, uma garagem transformada em escritório de criação) e escrevemos a apresentação. Ou melhor, Veppo ditou o texto caminhando pela sala, enquanto eu, sentado diante de uma mesa, anotava o que ele dizia. Era uma história simples e bonita, dessas que o Veppo sabia narrar como poucos. Uma história passada no Café Expresso, na praça Saldanha Marinho, no tempo em que estava sendo construída a comunicação entre a avenida Rio Branco e a rua do Acampamento. O Veppo tinha ido tomar café, comentava com um amigo a morte recente do poeta Paulo Leminski, aos 40 anos, devido ao álcool e outras drogas, e queixava-se: “Como ele pode fazer isto com ele e conosco!” Então um sujeito se vira pra o Veppo e pergunta se a vida pode ser medida pelo comprimento e pela largura. Em resumo, se podemos lastimar uma vida curta, se uma vida é menos porque durou pouco, se uma vida é mais porque atravessou várias décadas&#8230;</p>
<p>Uma questão e tanto! Um questionamento grave que acompanhava nossas conversas: Como avaliar uma vida? Como saber se ela tem sentido ou não? Talvez fazendo livros, eu respondo agora, talvez se envolvendo com livros – e tendo uma ou outra história para contar.</p>
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		<title>Divagações em torno de uma fotografia</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Apr 2009 13:52:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Vitor Biasoli]]></category>
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		<description><![CDATA[Vitor Biasoli
Estou intrigado com uma foto que minha mãe me deu. Uma foto de 1897 – da família do meu avô materno, quando ele tinha menos de um ano de idade. Um trabalho do “photographo Baptista Lhullier”, com estúdio na rua General Osório, em Pelotas. Na foto, meu avô está sentado numa coluna entre o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Estou intrigado com uma foto que minha mãe me deu. Uma foto de 1897 – da família do meu avô materno, quando ele tinha menos de um ano de idade. Um trabalho do “photographo Baptista Lhullier”, com estúdio na rua General Osório, em Pelotas. Na foto, meu avô está sentado numa coluna entre o pai e a mãe (ambos de pé), com os três irmãos na sua frente (todos com menos de dez anos de idade).</p>
<p>Meu avô nasceu em 1897 e o pai dele era um português da Ilha da Madeira. Não sei quando chegou no Rio Grande do Sul e se estabeleceu em Pelotas. Sei que teve uma lancha, transportava charque para os navios que ficavam no Saco do Laranjal (talvez no porto de Rio Grande também) e foi nessa atividade que ganhou dinheiro. Naquele tempo (segunda metade do século XIX) não havia porto em Pelotas e as charqueadas viviam seu apogeu, exportando charque para a escravaria da Bahia, Rio de Janeiro e Cuba. Depois o bisavô largou esse negócio e montou um armazém: o Asa Branca. </p>
<p>Quanto ao cotidiano do armazém, meu avô contava que brincava entre os sacos de milho e feijão. Colocava milho no saco de feijão, feijão no saco de milho, e era severamente castigado por conta disso. Não sei se o vô costumava fazer essas artes com frequência, mas ria quando contava a história e dava a entender que tinha sido muito arteiro.</p>
<p>Pois eu estou intrigado com a foto porque sei pouco a respeito do meu avô materno. Nós conversávamos muito (ele morreu em 1982) e hoje me dou conta que mesmo assim sei pouco sobre ele. </p>
<p>A foto está na bancada onde escrevo, venho procurando decifrar o que ela conta&#8230; e percebo em mim uma ignorância profunda. Não sei contar a história dessa família&#8230;</p>
<p>Recordo que ele (na década de 1960) tinha um pequeno galpão no fundo do quintal e ali, diante de uma mesa de madeira rude, consertava torneiras, martelava numa gaiola de passarinho e contava histórias. </p>
<p>Falava da sua infância na zona do porto de Pelotas e de como gostava de futebol. Contava a respeito do dia em que Zeca Netto tomou a cidade, em 1923, e coisas assim. Eu me sentava na frente do galpão (era tão pequeno que só cabia o vô lá dentro) e ouvia o que ele falava. As galinhas cacarejavam logo ali (tinha um galinheiro ao lado do galpão) e aquilo sem dúvida era um paraíso.</p>
<p>Mas sei pouco sobre a história do meu avô. A foto me provoca lembranças imaginárias e súbito sou capaz de ver meu bisavô (cofiando seus vastos bigodes) atendendo atrás do balcão do armazém e de repente descobrindo que o filho misturava o milho com o feijão. O homem dá um grito para o menino parar aquela “arte” e o som de sua voz chega até hoje. Atravessa todo o século XX. Ecoa no século XXI. E sinto que ele traz alguma coisa que me forjou: um pouco da Ilha da Madeira, outro tanto da Pelotas de 1906 ou coisa assim.</p>
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		<title>Relatório da ONU sobre territórios palestinos</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 14:44:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vitor Biasoli
Na semana passada, Richard Falk, relator especial da ONU para direitos humanos nos territórios palestinos, apresentou o número de vítimas provocado pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, em dezembro e janeiro passados. Houve 1.434 mortos, sendo 960 civis, durante os 22 dias de bombardeio. Israel, por sua vez, teve 13 mortos, sendo 3 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Na semana passada, Richard Falk, relator especial da ONU para direitos humanos nos territórios palestinos, apresentou o número de vítimas provocado pelos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, em dezembro e janeiro passados. Houve 1.434 mortos, sendo 960 civis, durante os 22 dias de bombardeio. Israel, por sua vez, teve 13 mortos, sendo 3 civis.</p>
<p>Nas notícias dos jornais brasileiros on line sobre o relatório de Richard Falk (publicadas na semana passada), não encontrei o número de feridos. Observadores internacionais, no entanto, falam em 6.000 – a grande maioria civis e, dentre eles, um número enorme de crianças. O relatório aponta uma série de crimes de guerra cometidos pelo Estado de Israel (isto é, ações militares que violam a Convenção de Genebra), como ataque a escolas, mesquitas e ambulâncias palestinas (algumas da própria ONU), mais o uso de bombas com fósforo branco (as A825AI de fabricação norte-americana), proibidas de serem utilizadas em alvos civis.<br />
Segundo o relator, a ofensiva militar das forças armadas israelenses não foi legalmente justificada e por isto sugere que o Conselho de Segurança da ONU crie um tribunal penal para estabelecer responsabilidades. O que não irá acontecer, claro – ou o leitor tem alguma dúvida a respeito?</p>
<p>Endossando o massacre apontado pelo relatório de Richard Fark, soldados israelenses que participaram da operação militar têm afirmado que “houve casos em que militares mataram civis inocentes, danificaram propositadamente propriedades palestinas” e que receberam sinal verde de oficiais superiores para isto. As declarações foram publicadas na imprensa israelense e levaram o procurador do Exército a se pronunciar oficialmente e ordenar uma investigação.</p>
<p>Escrevo isto lembrando dos meus colegas judeus, nos anos 70, que foram morar em Israel. Um deles chegou a participar de treinamento armado – “para que não se repetisse mais a passividade dos judeus frente aos nazistas”, ele explicava – e que há anos não quer tocar no assunto. No verão, cruzei com uma amiga judia num shopping porto-alegrense e conversamos longamente. Ela morou num kibutz israelense em 1975-76 e, quando fomos falar desse antigo entusiasmo dela, ela pediu para pularmos essa parte. “Este Estado de Israel que está aí não é o que sonhei”, ela falou. O sionismo foi uma alternativa para a sobrevivência de um povo oprimido e hoje perde completamente a credibilidade. </p>
<p>Tornou-se um nacionalismo como outro qualquer. Capaz, como qualquer nacionalismo quando levado ao extremo, quando armado até os dentes (como é o caso de Israel, o quarto maior exército do mundo), de proporcionar as maiores atrocidades – como a que ocorreu na Faixa de Gaza, nos meses de dezembro e janeiro últimos.</p>
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		<title>Vítimas da Segunda Guerra Mundial</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 14:34:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vitor Biasoli
Uma entrevista do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, provocou uma polêmica interessante na semana passada. A entrevista foi publicada pela revista “Press &#038; Advertising” e nela o arcebispo afirma que os judeus não foram os mais sacrificados durante a Segunda Guerra Mundial, pois o número de católicos mortos foi muito maior. As [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Uma entrevista do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, provocou uma polêmica interessante na semana passada. A entrevista foi publicada pela revista “Press &#038; Advertising” e nela o arcebispo afirma que os judeus não foram os mais sacrificados durante a Segunda Guerra Mundial, pois o número de católicos mortos foi muito maior. As lideranças judaicas protestaram e o arcebispo remendou. Disse que não estava negando o holocausto, mas lembrando que os judeus não foram as únicas vítimas. Os ciganos foram massacrados, os homossexuais idem e pouco se fala a respeito deles, acrescentou. </p>
<p>Também afirmou que houve outros massacres no século XX, como o provocado pelo sistema soviético (110 milhões, segundo o arcebispo), e é só dos mortos judeus durante a Segunda Guerra que se fala.<br />
Não tive acesso ao texto do arcebispo, mas apenas a sua repercussão na imprensa de Porto Alegre e também a resposta que ele deu ao presidente da Federação Israelita do RGS. No texto que desencadeou a polêmica, o arcebispo se refere a vários assuntos do mundo contemporâneo e a questão das vítimas do nazismo é apenas uma parte. No entanto, como é assunto polêmico (desses que um professor de História não pode se furtar), resolvi comentar. </p>
<p>E começo por uma visão equivocada que está se consolidando a respeito do Estado hitlerista: de que este Estado se definiu exclusivamente pela perseguição aos judeus. Um entendimento que aparece, por exemplo, nos comentários a respeito do filme “Operação Valquíria” (que recentemente passou nos cinemas da cidade). A fita retrata a conspiração liderada pelo coronel Von Stauffenberg para matar Hitler e li um crítico de jornal dizer que isso ocorreu devido ao horror que a Alemanha hitlerista praticava: o extermínio dos judeus. Ora, isto era o que menos importava para o aristocrático coronel e seus camaradas (o general Rommel, entre eles). Para os conspiradores, a questão central era o fracasso militar do projeto nazista e a submissão do Estado-Maior aos delírios de Hitler. Ideologicamente (nos itens superioridade ariana, culpabilização dos judeus quanto aos problemas da </p>
<p>Alemanha e caráter policial do Estado nazista) não havia divergência. O Estado nazista era muito mais do que perseguir judeus, seu projeto era o de construir um domínio sobre a Europa, onde todas as raças inferiores ou grupos religiosos e políticos indesejáveis seriam escravizadas e até eliminados.</p>
<p>A polêmica desencadeada pelo arcebispo de Porto Alegre – basicamente, o lugar dos católicos entre as vítimas do nazismo – me parece que cria a possibilidade de discutir o assunto. Afinal, nos campos de concentração da Alemanha nazista, morreram 10 milhões de pessoas. Desse total, calcula-se que quase 6 milhões eram judeus. E os outros 4 milhões? Outra coisa, os massacres não ocorriam apenas nos campos de extermínio (caso da cidade de Kharkov, em 1941). Dizer isto, não é negar o holocausto, mas estabelecer o lugar dos diferentes grupos (étnicos, políticos, religiosos e sexuais) que o nazismo oprimia e até eliminava fisicamente.</p>
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		<title>Império do automóvel</title>
		<link>http://www.arazao.com.br/2009/03/12/imperio-do-automovel/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Mar 2009 04:17:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na semana passada, li n“A Razão” que Santa Maria tem contribuído tanto para a manutenção da produção industrial brasileira quanto para o agravamento dos problemas de trânsito]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada, li n“A Razão” que Santa Maria tem contribuído tanto para a manutenção da produção industrial brasileira quanto para o agravamento dos problemas de trânsito. Isto é, mais de 800 carros foram emplacados na cidade, nos primeiros meses do ano, e a economia brasileira não pode se queixar da capacidade de consumo santa-mariense. Isto é um estímulo para a produção de automóveis – um dos índices da economia nacional – e provavelmente as montadoras brasileiras agradecem, assim como as concessionárias e a própria Central Única dos Trabalhadores.</p>
<p>Por outro lado, não convém esquecer que este aumento do número de veículos é também uma contribuição para a complicação no trânsito nacional. As cidades não foram planejadas para o “império do automóvel” e os problemas de viários se agravam ano a ano. As principais capitais brasileiras já se encontram num ponto crítico – Rio e São Paulo que o digam, estão à beira do caos – e os demais núcleos urbanos seguem o modelo. Um contingente expressivo da população adere a um estilo de vida onde o carro é peça individual imprescindível para o cotidiano e estamos no pé em que estamos: diante das agruras dos engarrafamentos. Santa Maria está longe do caos, mas não convém esquecer que é para lá que nós vamos.</p>
<p>Quanto a isto, meu ponto de partida para pensar Santa Maria é 1991, quando vim morar na cidade. De lá para cá, constato uma mudança impressionante no trânsito. Não sou motorista – sou um pedestre que cruza de ponta a ponta o nosso núcleo urbano – e observo. Às vezes ando de carona, de táxi ou de ônibus e constato que o trânsito não é mais de um modesto burgo interiorano. Quando pego um táxi para ir de casa à rodoviária, já percebi que devo calcular um tempo maior do que há dez anos atrás.</p>
<p>Será que isso tem solução? Não sei. A indústria nacional depende das montadoras de automóveis, as montadoras dependem da fissura dos brasileiros por automóveis, a fissura por automóveis está vinculada às deficiências do transporte público e essas deficiências só fazem crescer a paixão por carros individuais e o aumento da produção de automóveis. Tudo isto incrementa a economia nacional e também estrangula o trânsito das metrópoles brasileiras assim como gera tensões nas cidades de porte médio, como Santa Maria.</p>
<p>Os otimistas dirão que tudo se resolverá no dia em que os poderes públicos investirem maciçamente em avenidas, pontes e túneis, e remodelarem as cidades. Pode ser. Mas é muita grana, dinheiro público demais para 1/4 (ou menos) dos habitantes das cidades, isto é, os proprietários de veículos privados. A alternativa mais razoável seria um investimento pesado no transporte coletivo, mas isto, provavelmente, seria um golpe no império do automóvel e no padrão ideal de vida urbano. Impensável, então. Melhor o aumento dos automóveis e esta balbúrdia generalizada no trânsito das cidades.</p>
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		<title>“No silêncio comovido da minh’alma”</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Feb 2009 15:20:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Vitor Biasoli]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Fui para a praia do Cassino e levei um livro de Fernando Pessoa. Fiz uma reserva num apart hotel de frente para o mar e pedi: quero um apartamento com sacada para a barra do Rio Grande]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Fui para a praia do Cassino e levei um livro de Fernando Pessoa. Fiz uma reserva num apart hotel de frente para o mar e pedi: quero um apartamento com sacada para a barra do Rio Grande. Só não disse que queria esta vista para assistir “Os navios que entram na barra / (&#8230;) / Os navios que passam ao longe / (&#8230;) [pois] / Todos estes navios comovem-me como se fossem outra coisa”.</p>
<p>Esses versos fazem parte da “Ode marítima”, de Álvaro de Campos (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), e me acompanham desde a juventude. No verão de 1972 ou 73, viajei com uns amigos pra Cidreira e um deles me pediu dinheiro emprestado. Quando regressamos, ele me pagou com “O eu profundo de outros eus”, de Fernando Pessoa. Li e reli durante anos este livro, até que emprestei para uma professora e ela nunca devolveu. (Um dos três ou quatro livros que emprestei e que me arrependo até hoje.) Semanas atrás passei na banca de revista e lá estava a mesma obra, agora reeditada numa coleção de pockets. Uma beleza! Foi uma das companhias na minha pequena temporada de praia.</p>
<p>Li alguns versos para minha mulher, quis explicar a “viagem exploratória” que esses poemas me proporcionaram – a busca dos diversos eus nos quais nos multiplicamos –, mas confesso que não consegui. Poesia é coisa que se sente e fim de linha. Quando a gente quer explicar, melhor fazer um poema (quem sabe uma crônica) e se der certo, muito bem. Caso contrário, a poesia fica dentro de nós – como alguma coisa sem forma nadando entre as algas do peito –, a gente fecha os olhos, sabe que está lá e pronto. Vive-se.</p>
<p>Talvez pareça engraçado eu ter lido debaixo do guarda-sol: “Já não me importa o paquete que entrava [e os navios entrando e saindo da barra do Rio Grande] (&#8230;) / A minha imaginação (&#8230;) / Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis, / Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros, / Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras”.  Ler, olhar o corpo da mulher exposto ao sol – feliz de poder entregar-se ao sol – e depois voltar para o quarto do hotel feito um marujo que fez uma longa viagem. Com gosto de sol e de sal para sentir e saborear.</p>
<p>Confesso que nunca tinha lido a “Ode marítima” do início ao fim, um longo e alucinado poema de quarenta páginas, e valeu como uma das realizações desse verão. Fernando Pessoa imaginou o delirante Álvaro de Campos na beira do cais, na beira do Tejo – saudando o movimento dos navios e interrogando o “Grande Cais donde partimos” –, mal sabendo que um leitor o leria na beira de uma praia da América do Sul, na sacada de um hotel da América do Sul, quase um século depois. Quanta distância e quanta proximidade, “no silêncio comovido da minh’alma&#8230;”!</p>
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		<title>Um passeio a Porto Alegre</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Feb 2009 00:19:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Biasoli]]></category>
		<category><![CDATA[artigo]]></category>

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		<description><![CDATA[Eu estudei nessa escola quando ainda existia bonde, pensei. Isto mesmo: bonde! Como estou ficando velho!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Estive em Porto Alegre na semana passada e passei na frente do Colégio Rosário. Eu estudei nessa escola quando ainda existia bonde, pensei. Isto mesmo: bonde! Como estou ficando velho!</p>
<p>Em 1967, minha família se mudou para Porto Alegre, eu tinha onze anos de idade e fui cursar a primeira série ginasial no Colégio Rosário. Morava no bairro Floresta e todas as manhãs esperava o bonde numa calçada da Cristóvão Colombo. Uns dois anos depois os bondes saíram de circulação e por um bom tempo ainda ficaram os trilhos entre os paralelepípedos da rua. A cidade ganhou ares de metrópole, mas até o final dos 70 o centro ainda era um lugar elegante para a classe média. Mudou bastante ao longo dos 80 e hoje nem sei o que dizer. A Livraria do Globo não tem mais vitrines na Rua da Praia e só isto já me parece um índice significativo da transformação.</p>
<p>Mesmo assim, sou desses sujeitos que, quando vão a Porto Alegre, ainda acham graça pernear pelo centro da cidade. Gosto de andar pela Rua da Praia e invariavelmente meu caminho vai dar na Praça da Alfândega. Na semana passada, não foi diferente. Cheguei na praça e fui ao Santander Cultural ver com calma a exposição dedicada à Gilberto Freyre e à Ariano Suassuna, dois gigantes da cultura pernambucana, e depois almoçar na Casa de Cultura Mário Quintana. </p>
<p>Freyre não era valorizado nos 70, quando fui estudante de História, por conta da crítica marxista à sua posição política conservadora. “Casa-grande &#038; senzala”, sua obra genial de 1933, eu só fui ler integralmente muitos anos depois de formado. Um livro “germinal”, como disse o próprio autor, pois traz o gérmen de toda a sua produção intelectual. Uma obra hoje considerada precursora da chamada história das mentalidades. </p>
<p>Depois fui almoçar na Mário Quintana e pedi o prato do dia, mais uma taça de vinho branco pra acompanhar. Veio um vinho simples e bom, que recordou o aroma de um outro, que bebi em janeiro de 77 em algum restaurante de Buenos Aires&#8230; </p>
<p>Que viagem no tempo! Me vi guri andando de bonde em 1967 (com “As aventuras de Tibicuera” na pasta escolar), um jovem de 21 anos bebendo vinho numa pizzaria de Buenos Aires, em 1977 (e que lia Ernesto Sábato e Eduardo Galeano), e agora um homem de 53 anos, olhando as paredes do hotel onde viveu o poeta Mário Quintana&#8230; E onde cursei, na metade dos 80 (antes das reformas que deram a feição elegante que a Casa hoje possui) uma oficina literária fundamental. Um curso que me liberou para a expressão escrita e me auxiliou nessa atividade que até hoje exercito: a do registro de histórias pessoais, com a pretensão de possibilitar que outros leitores encontrem a sua própria história, façam e refaçam seus passeios a Porto Alegre ou a outra cidade qualquer.</p>
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		<title>Os irmãos Karamázov</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Feb 2009 21:42:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal A Razão</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Biasoli]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>

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		<description><![CDATA[Acho que esse é um dilema que a maioria dos leitores enfrenta a cada verão que se inicia: o que priorizar, Platão ou Agatha Christie?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Biasoli</strong></p>
<p>Há uma idéia generalizada de que as leituras de verão devem ser necessariamente leves, puro entretenimento. Para aqueles que passam o ano envolvidos com leituras pesadas, então, isto é quase uma obrigação. Por outro lado, o verão (especialmente quando coincide com férias ou, ao menos, com um ritmo menos intenso de atividades) é um período que sempre pode ser melhor aproveitado. O tempo ideal para encarar um ou outro dos “100 autores que você precisa ler” (subtítulo de um guia de leitura editado pela L&#038;PM), um ou outro dos “100 livros essenciais da literatura mundial” (título de um número especial da revista “Bravo!”). Tempo para sossegar a nossa consciência de leitor e enfrentar (ou concluir) a leitura do “Decameron” ou “Dom Quixote”, “Guerra e paz” ou “Crime e castigo”, e assim por diante. Livros que aprendemos a reconhecer como fundamentais (isto pra quem acha que a leitura de romances, contos e poesia é fundamental, claro) e para os quais muitas vezes faltou tempo ou disposição.</p>
<p>Acho que esse é um dilema que a maioria dos leitores enfrenta a cada verão que se inicia: o que priorizar, Platão ou Agatha Christie? Da minha parte, desta vez resolvi encarar um peso pesado como Dostoiévski: “Os irmãos Karamázov”. Li – e patinei na leitura, verdade seja dita – a recente tradução lançada pela Editora 34. Um texto, segundo o tradutor Paulo Bezerra, que busca recriar o estilo dostoievskiano: “às vezes meio tosco”, com períodos longos, volteios sintáticos bruscos e “pontuação pouco usual para mentes educadas pela chamada boa escrita”. </p>
<p>A narrativa é extensa, minuciosa, complexa e, claro, exige do leitor. Ao mesmo tempo, fascina devido à galeria de personagens e, especialmente, à trama cabeluda: o parricídio. Nesse sentido, torna-se quase um romance policial: o da investigação a respeito de qual dos filhos é o assassino. Como diz Ivan, um dos irmãos: “Quem não deseja a morte do pai? (&#8230;) Todos desejam (&#8230;). Não houvesse parricídio, e todos ficariam zangados e sairiam por aí furiosos&#8230;” (p. 888).</p>
<p>Pois encarei esse peso-pesado da literatura e lembrei de um antigo professor de filosofia que, uma ou outra vez, encerrou sua aula com uma referência ao livro. Ele citava o discurso final de Aliocha (o mais religioso dos irmãos), dizendo de que uma boa lembrança vivida e trazida da casa do Pai (do mesmo Pai que todos desejam matar) “só isso já nos poderá servir como salvação” (p. 996).</p>
<p>Uma leitura poderosa para os dias de verão. Leitura capaz de nos colocar em sintonia com grandes temas: a morte do pai e a busca da salvação. Uma e outra marcadas por dúvidas e sofrimentos que Dostoiévski narrava sem medo e com alguma volúpia, provavelmente certo de que é na investigação destes aspectos da vida que encontramos a nossa humanidade.</p>
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