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COLUNISTAS

A dor que vem das ruas

Daniel Tonetto

por Daniel Tonetto em 24/02/2017

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Entre as centenas de casos em que trabalhei nos meus mais de 15 anos de profissão, alguns, em especial, me marcaram. E jamais os esquecerei.  

Quatorze de agosto de 2011, Dia dos Pais: o jovem Ângelo Razzolini Biazzi, 23 anos, estudante universitário da área de design, volta para casa com a namorada depois de um jantar na casa de amigos. Estava amanhecendo e o casal foi atacado por um grupo de assaltantes, jovens como ele, que queriam seu boné.

Ângelo é brutalmente assassinado a facadas em pleno Calçadão, na região central da cidade.

Oito de julho de 2016, uma sexta-feira: a jovem Shelli Uili da Rosa Vidoto, 27 anos, relações públicas, sai de sua casa na Rua Bento Gonçalves, Bairro Nossa Senhora das Dores, para levar cosmésticos a uma cliente. É atacada por um jovem, que estava na companhia de uma adolescente. O assaltante desfere facadas em Shelli para levar sua bolsa. Ela tomba, morta.

Atuei como assistente de acusação nesses dois processos de latrocínio e jamais esquecerei da dor dos familiares. Nos dois casos, os assassinos foram condenados a penas altas e no último, a menor que estava com o criminoso, foi responsabilizada mesmo com a branda disposição legal do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que já deveria ter sido modificado para penalizar menores de 18 anos com punições mais severas.

Jamais vou esquecer dos pais de Shelli, quando vieram de Santiago até meu escritório. Foi a primeira vez que os vi e guardo na memória um conjunto de frases que ouvi. Uma delas, em particular, me doeu fundo no coração: “Eles não mataram somente a nossa filha. Nós também fomos assassinados. E fomos condenados a um eterno sofrimento”.                     

Não há como não chorar ao lembrar de frases como essa. Não há como não compartilhar da dor de pais, familiares, amigos. Tanto que nos dois casos houve grande repercussão e protestos pedindo justiça com a participação de pessoas que sequer tinham qualquer relação com as vítimas e suas famílias.     

Diante dessas amargas lembranças, saúdo o tenente-coronel Ricardo Hofmann, novo comandante do Comando Regional de Polícia Ostensiva (CRPO) Central. Na entrevista publicada na edição desta quinta-feira em A Razão, o novo chefe regional da Brigada Militar estabelece como prioridade combater assaltos a pedestres. Ele explica que esse tipo de delito cresceu consideravelmente em nossa cidade, no mês passado, e precisa ser combatido com firmeza.

Sabemos que muitos casos de roubos na rua não são registrados pelas vítimas, às vezes pelo pequeno valor de um objeto levado, por medo ou por outra razão qualquer. Mas há muitos, muitos mesmo, desse tipo de delito ocorrendo. É que, por um mínimo detalhe, um roubo a pedestre pode se tornar um latrocínio.

Nas ruas das médias e grandes cidades, a vida sempre está por um fio. Enquanto vivermos num país como o Brasil, o combate a esse tipo de crime tem de ser permanente. E com policiamento ostensivo. Caso contrário, mães, pais e filhos de vítimas continuarão sendo condenados a um eterno sofrimento.

Daniel Tonetto

Daniel Tonetto

Advogado e professor de direito

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