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COLUNISTAS

Setembro / 1978

James Pizarro

por James Pizarro em 08/09/2016

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Corria o mês de setembro de 1978. Lembro bem. Há 38 anos, brilhava na zaga do Inter de Porto Alegre o chileno Figueroa, um dos maiores ídolos colorados de todos os tempos. Figueroa sabia falar bonito. Juntava direitinho as palavras. Tinha bela voz. Cabelos ondulados. Cotovelos de ouro. Fazia uma bela imagem na televisão. Figueroa conquistou a alma colorada. Jogava muito bem. Declamava poemas de Pablo Neruda. Era um emotivo. Que mais poderia desejar a torcida colorada? O capitão do time era inteligente. Craque. Bonito.Figueroa fez nome. Foi legenda. E partiu.

Para seu lugar - vindo da Argentina - a direção do Inter contrata Salomon.

Um tipo enorme. Desengonçado. Braços pendentes e bamboleantes. Cara de cavalo. Salomon com dente de ouro. Sim, um resplandecente dente de ouro bem na frente da arcada. Um belo dente de ouro. Um lindo trabalho odontológico. Mas a torcida do Inter não gosta de homem com dente de ouro na boca. Ao invés do carismático sorriso do másculo Figueroa, a direção presenteia a torcida com Salomon do dente de ouro. E a torcida não perdoa. A torcida não ama Salomon. A própria imprensa - que ajudara no endeusamento de Figueroa - tem má vontade com Salomon. E os fotógrafos exibem o pé de Salomon. Um pé número 50.Salomon não acerta. Não joga. Pelo menos não joga aquilo que a torcida esperava de alguém que tinha o topete de substituir Figueroa.Lembro bem da data. Corria o mês de setembro de 1978.

Salomon chegou. Viu. E não venceu. Era uma contratação bombástica do Internacional de Porto Alegre. Salomon foi contratado para tentar apagar a imagem do chileno Figueroa. Mas Salomon não convenceu.
E assim Salomon ficou. Jogando mal. Até que o Penharol apareceu para comprá-lo. Chegou a ser inscrito pelo time estrangeiro para disputar o campeonato do país vizinho. Afinal, era uma solução boa para todos. O Inter se livrava de Salomon. E o Salomon se livrava do Inter. Aí veio o último jogo de Salomon pelo Inter. Um Gre-Nal. Disputado numa quinta-feira, lembro bem. Uma partida que não deveria ter sido jogada. Uma partida mal gerada. Um aborto satânico. Um campeonato teratológico. Uma partida que não mereceu nem a presença dos titulares. E nem da torcida. Diante de poucos torcedores e jogando com reservas, o Inter venceu o Gre-Nal. Mas Salomon - que se despedia da torcida que nunca chegou a amá-lo - foi violentamente agredido por um jogador do Grêmio. E Salomon fraturou a tíbia e a fíbula.

Todos falaram em amparar Salomon. Um jogador de 28 anos. Mas ninguém amparou Salomon. Ele ficou solitário. Com sua perna torta. Sem amigos.

Tudo virou neblina na vida de Salomon. Opacidade. Escuridão.

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