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COLUNISTAS

Um desenhista morto

James Pizarro

por James Pizarro em 22/09/2016

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Quando tinha 14 anos, depois de tirar nota máxima na disciplina de Desenho durante todo o Ensino Fundamental (chamado de “Ginásio” à época), decidi ser desenhista. Eu tinha uma espécie de baú de vime atrolhado de milhares de desenhos e pinturas.

Devido à falta de dinheiro da família, eu misturava tinta de sapato, cola e talco, passava em cima de folhas de papelão e esperava endurecer. Depois fazia desenhos em cima com uma lâmina de barbear. Devido a esta “técnica” inventada por mim, a professora Dilma, minha mestra de Desenho no Colégio Estadual Manoel Ribas, em Santa Maria, promoveu uma exposição dos meus trabalhos nos murais e corredores da escola. Foi um sucesso no meio dos colegas pelo inusitado material usado.

Também fui aluno da professora Iolanda Beltrame, que muito me incentivou e com a qual – para minha grande alegria – encontrei semana passada na portaria da Galeria do Comércio. Para minha surpresa, a querida professora me disse: “Tenho até hoje desenhos teus guardados nos meus arquivos”.

Tendo o incentivo da professora Dilma e da professora Iolanda, fui falar a meu pai que queria entrar no então existente “Instituto de Belas Artes”, que funcionava na Rua do Acampamento, dirigido pelo maestro Garibaldi Poggetti. Lá ministrava cursos de desenho o pintor Eduardo Trevisan. Meu pai, horrorizado pela ideia de que eu pudesse abandonar o estudo formal e sendo vítima também do preconceito que se tinha na década de 1950 contra artistas em geral, não deu seu consentimento. Lembro da terrível discussão que se seguiu, furto da intolerância de meu pai e de minha rebeldia. Indignado por ver frustrado meu desejo, carreguei meu baú de desenhos para o meio do quintal e, munido de uma garrafa de álcool, toquei fogo em tudo. Enquanto via desaparecer meus desenhos e minhas pinturas sob a inclemência das chamas, eu chorava de pena e de ódio.

Durante os 45 anos em que dei aulas de Biologia na UFSM, cursinhos e colégios, os alunos ficavam admirados com os belos desenhos de plantas, animais, órgãos, etc...que eu fazia no quadro-negro. Mal sabiam eles que eu estava sendo um artista naqueles momentos e não um professor comum de Biologia, tentando resgatar meus desenhos adolescentes das chamas e da incompreensão do passado.

Meu futuro de desenhista e pintor foi abortado pela pedagogia familiar da época. Certamente, na melhor das boas intenções. Mas foi minha primeira frustração. Eu pagaria um preço alto para ter alguns desenhos daqueles de volta. Para dar de presente aos meus cinco netos. Mas este é um milagre impossível. Morreu meu pai. Evaporaram meus desenhos.

E se volatilizou meu sonho...

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